Claro que nada é implacavelmente necessário. Mas as nossas decisões necessitam ser verdadeiras. Não podem nascer apenas da revolta ou da negação de qualquer coisa. Somos constante movimento de ultrapassagem e aceitamos um futuro porque cremos em surpresas. Estamos em perene criação de nós mesmos, essa metamorfose ambulante, como diria Raul Seixas. Interrompemos a nós mesmos e não somos apenas lembranças e previsões.
Estava no fundo de uma cela forte, condenado a um ano e meio de castigo. Havia cometido um assassinato na prisão por uma questão de honra. Contava 20 anos de idade, já condenado a cumprir prisão pelo resto de minha vida. Meus passos me separavam de mim, meus olhos eram carregados de fantasmas e não havia alma, apenas movimento no ar. Estava enterrado vivo. Meus sonhos estavam mortos e tudo era vazio de vida. Havia consumido o último vestígio de mim. A mente fluía silenciosa a decompor quimeras e tristes ilusões partidas.
Então, ao lado de minha cela, chegou um companheiro. Havia agredido alguém no pátio. Não podíamos conversar. Não entrava nem Bíblia, nada para ler ou fazer. Só havia um buraco na porta para que o guarda nos espiasse. E ele estava sempre presente, aquele olho escuro a vigiar. Big Brother era brinquedo para aquilo.
Mas, é claro, a gente inventava uma moda. Tirávamos a água das privadas com as mãos e liberávamos o cano que fazia ressonância na caixa única de coleta de esgoto. Na madrugada, enquanto o guarda da galeria dormia, nós conversávamos pelo nosso malcheiroso ‘telefone’.
Entre outras conversas, o companheiro recém-chegado, veterano em cumprir castigos, me ensinou como preencher o tempo. Ginástica e movimento eram essenciais. Escalar a tristeza pelo avesso, escapando do buraco negro onde havia me metido. Era um fisiculturista, me ensinou uma série de exercícios físicos que fui adaptando às minhas possibilidades.
Falar de nossa existência não é apenas falar sobre o que a vida fez de nós. É muito mais importante dizer do que nos esforçamos para fazer dela. Eu começava o dia me exercitando vigorosa e lentamente. Depois tampava a saída do vaso sanitário, claro que limpíssimo, e pedia para o guarda dar descarga (era pelo lado de fora.). Segurava a água no vaso para tomar banho. A parte da manhã estava cumprida. Estava cansado o suficiente para ter fome e poder dormir à noite, sem me masturbar durante o dia. A noite estava liberado. A maioria se masturbava dia e noite, era a única distração. Isso acabava com o sujeito física e mentalmente.
Com a liberação da visita íntima em 1985 e a entrada das mulheres na prisão, a pederastia, como única alternativa sexual, terminou. Então pude vestir short e correr no pátio. Antes era dar mole para os tarados ‘comer na mão’. Agora já liberado de castigos, corria todos os dias em volta do pátio de recreação. Gostava de resistência e fôlego, fazia corrida de fundo.
Com meu amigo Natal, aprendi a lutar boxe. Ele era professor da nobre arte. Apanhei feito gente grande, até aprender a me defender devidamente. Fazíamos levantamento de peso com garrafas plásticas amarradas em cabos de vassoura. Corríamos e lá ia eu de novo tentar defender minha cara daquelas luvas enormes. Não era fácil, mas, quando fui para a Casa de Detenção e entrei para a academia de boxe, é que fui valorizar. Bati até cansar nos aprendizes. Ficava até com dó deles.
Parei de lutar boxe com quase 50 anos, quando meus reflexos provaram-se insuficientes. Andei tomando umas surras de jovens amadores, até que um mais poderoso me acertou um coice no rosto, afundando ossos e cortando tudo por dentro. Comecei a dosar na corrida e no levantamento de peso.
De qualquer maneira, ainda faço uma sombra com o boxe, pedalo na ergométrica, dou vigorosas passadas na esteira e trabalho com aparelhos na academia que estou freqüentando agora, aqui fora. Sinto-me forte, muito sadio e há cerca de uns cinco anos nem gripe pego. Jamais parei.
Sobrevivi 30 anos de prisão sem enlouquecer, preservei minhas emoções, ainda faço poesias e posso fluir meus pensamentos em qualquer direção. O que fiz? Preenchi meus minutos da mesma luz com que me ilumino para escrever agora. Fiz com que os outros habitassem meu coração. Distingui a mim mesmo de uma confusão de idéias, coisas e pessoas e descobri que minha natureza é pensar, me cuidar e amar. Disciplina e esforço em busca do mesmo ideal de sempre: viver e chegar ao meu destino: ser livre.
Composto por Luiz Alberto Mendes em 23/05/2004.
A LUTA
Quando quis preencher de vida sua existência
O homem apontou para uma árvore e imaginou-se no direito
Derrubou uma floresta.
Andando a esmo, tropeçou numa pedra
E em sua dor, destruiu uma montanha.
Parou ao sentir o perfume de uma flor
Em sua louca ambição
Possuiu um jardim.
Por entre fios de sol que varavam os vidros da manhã
Respirou fundo e levado por imperiosa vontade
Dominou tudo ao redor.
Seu coração cresceu dentro da tarde mansa
Ansioso, almejou a majestade
Quando tudo lhe parecia tão menor
Então vestiu-se de rei.
Julgou-se culto e inteligente
Desprezou a sabedoria de seu pai
E castigou o filho.
Cansado de tudo possuir, do fundo de sua insatisfação
Quis ser amado.
Escalou púlpitos, sofismou idéias
E intentou ser admirado.
Perdido naquela vida que lhe parecia impune
Iludido com o poder, envolto em vaidade, perdeu o senso
Acreditou-se Deus
Por fim, desesperado pelo vazio cavado em torno de si
Começou tudo de novo.