Foto Fernando Lazslo
Caro Paulo,
Tive que voltar ao dr. Masanobu para curar uma inflamação no ciático da qual a ciência dos médicos ocidentais não tinha dado conta. Enquanto a sabedoria do velho amigo desobstruía o fluxo de energia do meu corpo, a gente conversava sobre tudo. Um dos temas era o desequilíbrio ambiental. Com toda naturalidade ele pontificou:
– Não se preocupe. Natureza sábia, né? Já providenciou solução problema desequilíbrio. Na África, natureza já criou dois, três vírus que vão exterminar dois terços humanidade. Aí, equilíbrio bom de novo, né?
Fiquei chocado com a naturalidade com que ele me comunicou tamanha tragédia. Por que o choque? Estou careca de saber que a natureza é mais sábia que o ser humano e que suas forças obedecem a leis rigorosas na busca da harmonia e do equilíbrio, não importa o quanto elas precisem destruir para seguir seu caminho. Tenho claro para mim que o homem não tem condições de destruir a natureza e que o que está em risco é o próprio homem. Tenho consciência disso e, sempre que tenho oportunidade, tento corrigir os pressupostos que dão ao homem a ilusão do controle e das certezas da vida. Acredito que a felicidade está no fluxo natural de todas as relações, seja entre as pessoas, seja entre nós e a natureza, com todos os encontros e desencontros que fazem a vida valer a pena ser vivida. Acredito que a vida é um grande jogo com regras que têm que ser descobertas para se jogar cada vez melhor. E até o momento eu achava que estávamos no meio do jogo, com perdas suportáveis e ganhos gratificantes. Talvez por isso o choque: para mim o extermínio de dois terços da humanidade pareceu o fim do jogo! Mas não para ele. Daí sua naturalidade.
Claro. Ele estava certo. A morte de dois terços da humanidade é absolutamente natural no processo de aprendizado e evolução da vida no planeta. E o um terço que vai continuar a nossa saga é a chance de a história continuar na direção de um final feliz. Isto
é, está tudo certo. Saí de lá muito confiante no futuro da humanidade, pronto para ler os jornais e confirmar os tais vírus africanos. E comecei a imaginar a humanidade pós-vírus.
Give man a chance?
Imaginei que a tragédia finalmente unirá todos os povos num esforço comum pela vida porque vírus não escolhe pobre ou rico, muçulmano ou cristão, americano ou francês, preto ou branco.
A diferença será vista como riqueza e não como ameaça. Imaginei que aprenderemos que “a consciência em si é a grande obra do ser humano. Que ampliar e colocar essa consciência em cada momento da vida é a verdadeira missão artística de todos os indivíduos. E que aperfeiçoar esse processo em escala planetária deve ser o propósito de toda nova tecnologia” (M.McLuhan in The Emperor’s Old Clothes). Imaginei que a arrogância dará lugar à humildade e o homem reconhecerá que ele é a própria natureza com a consciência, a liberdade e a responsabilidade de fazer o seu destino. Imaginei que, com tudo o que aprendemos e com a consciência que desenvolvemos, finalmente teremos tempo e paz para gozar plenamente os prazeres da vida. E aí fiquei feliz, mesmo sabendo que muito provavelmente eu não estaria lá para aproveitar.
Pode ser que os vírus não aconteçam, mas toda essa imaginação é realidade dentro da minha cabeça. E esse é o tipo de imaginação de que precisamos como inspiração e referência para tocar a vida, com ou sem vírus pela frente.
Fiquei tão grato com a reflexão que o Masanobu me provocou que achei legal dividir a lição com você. Acha que faz sentido? Abraço saudoso do amigo,
Ricardo.
Janeiro 2006.
*Ricardo Guimarães, 56, é presidente da Thymus e sempre encontra o lado positivo das coisas. Seu e-mail é: rguimaraes@trip.com.br
