Na primeira peça, ele recebia choques elétricos no corpo conforme a reação do público. Na segunda, rasga dinheiro no palco! Entenda qual é a do ator e poeta Michel Melamed antes de sua próxima estréia
por Nayse López // fotos Debora 70
A primeira vez que vi Michel Melamed, achei ele alto e cabeludo. Ele devia ter uns 16 anos, eu 20. Ele no palco, eu bebendo uma cerveja. Achava que se tratava de mais um dos meninos que, no Rio do começo da década de 90, irrompiam em nossas aulas e nos barzinhos declamando poesia (eram dois grupos, misturados por estilos e namoradas em comum: o Pô, Ética e o Boato). Então liguei ele com a geração poesia carioca do evento CEP 20.000, apadrinhada pelo poeta-mestre Chacal. Lembrava de festas com todo mundo sem dinheiro, cerveja quente, pouca luz e umas meninas bonitas que estudavam teatro e pegavam os poetas. Agora já sei que ele não foi de nenhum dos grupos que eu lembrava, estava só por ali. Fui reencontrar Michel recentemente, ainda cabeludo, poeta respeitado, ator (com Matheus Nachtergaele em Woyczec, por exemplo), autor, apresentador de TV (Recorte Cultural, TVE), roteirista… Eu lembrava dele gritando poesia, mas agora falava baixo, concentrado, televisivo. Todo mundo vira gente grande.
O sucesso veio em 2004, com o solo Regurgitofagia, no qual os sons produzidos pelo público causavam choques elétricos em Michel, lá no palco. No Rio, dezenas de prorrogações de temporada. Em São Paulo, Gerald Thomas, na Folha, jurou tratar-se de “um homem brilhante num espetáculo realmente genial”. E na peça tinha mesmo um cara propondo uma discussão de verdade sobre o papel da arte e do artista. Sem patrocínio, sem papel na Globo, sem família rica. Raro caso de teatro nacional sem um dos três. Michel apareceu nas revistas todo bonito, não mais cabeludo, alto e falador. A dramaturgia amadurece o homem. Fez 30 anos. Fez sucesso. Teria ficado rico? “Eu adoro dinheiro, adoro ser bem remunerado, comprar as coisas de que eu gosto”, diz ele. “O problema é que isso não é a única coisa que move o mundo. Como é que as pessoas aceitam isso? Eu fico puto de ver a miséria. Não consigo não fazer nada. E a arte é a ferramenta para falar disso, despertar uma possibilidade de mudança, de pensamento crítico nas pessoas. Não sou contra dinheiro, sou contra a ditadura do dinheiro. Mas… Espera aí! Vou organizar o pensamento, senão eu falo um monte de viagens e depois sai um pedaço confuso do que eu falei.” Aceitei. Vamos organizar.
ARTE É POLÍTICA
Michel começou aos 14 anos a freqüentar no Rio o projeto Terças Poéticas, no qual nomes como João Cabral de Melo Neto e Ferreira Gullar apresentavam novos poetas. Despontou de cara. Saiu de casa com 15 para 16 anos e desde então, entre todos os desdobramentos profissionais da poesia, vem se sustentando. “Sou um poeta profissional. Claro que podem me definir como apresentador de TV, escritor, ator de teatro… São coisas que eu faço mesmo. Mas no fim é sempre poesia.” O curso de história na UFF (Universidade Federal Fluminense) ele não terminou. E o resto foi ralação de artista underground clássica. “Nunca tive um patrocínio na vida, só apoios de pesquisa — como a bolsa da RioArte, que gerou o Regurgitofagia. Acho muito triste ver em que se transformou a dramaturgia brasileira. Quando vejo esses atores globais, alguns muito bons, fazendo novelinha no teatro, não entendo nada. Que teatro é esse? O que eu conheço é o que derruba, que rompe, que reclama que está tudo errado. Esse que é confortável e divertido para o público de novela não rola. No mundo em que a gente vive? Mas são esses atores que recebem os patrocínios”, afirma. Opa, voltamos ao dinheiro!
Depois do Regurgitofagia, Michel decidiu unir algumas idéias em uma trilogia sobre seus sentimentos em relação ao Brasil. Artisticamente, a série faz três proposições. A primeira é usar exclusivamente monólogos e explorar os limites da participação do público em uma obra de arte — e aqui temos de esquecer o sentido Zé Celso do termo: na trilogia melamediana, o engajamento do público deve ser voluntário. “Estou falando de tomada de posição, de exigir escolhas por parte do público. O constrangimento não me interessa.” A segunda proposta tem a ver com a mistura de linguagens artísticas, investigar como uma usa e abusa da outra. O terceiro ponto é o compromisso com o testemunho crítico da realidade, a idéia de assumir o teatro como responsável por pensar a política e a sociedade. “Sobretudo, gritar que toda arte é engajada, que é impossível falar de obra de arte sem implicação política”, diz ele.
PUTO COM TUDO
“Regurgitofagia partia de uma revisão de Oswald de Andrade sobre a antropofagia, a imagem de digerir o Bispo Sardinha como as influências culturais, para dali escolher o que somos. Eu propunha vomitar essa enxurrada diária que botamos pra dentro e então, dali, escolher o que queremos ser. O público era impelido a ter uma crítica sobre isso, porque de sua reação dependia o que acontecia comigo.” Ele sozinho em cena, com fios elétricos conectados no corpo… Ali ecoava o pau-de-arara. E então surgem as fotos da prisão de Abu Graib, praticamente iguais. “Até quando as pessoas vão agüentar não tomar partido, não se mobilizar?”, ele pergunta. “Na peça, o público precisava rir de propósito e mais alto, ou se segurar pra não me dar um choque, obrigado a ter que pensar sobre o efeito de seus atos na vida do outro.”
A segunda peça, Dinheiro Grátis, surgiu em 2005 como reflexão sobre a vida que estamos levando: “Se tudo tem um preço e o ser humano é tratado como mercadoria, então o dinheiro será tratado como gente”. Michel é muito engraçado, seu teatro é pop e midiático. Mas ele não está brincando. Também não é candidato, não ficou rico e nem faz negociatas. Está puto com os políticos, com a classe dominante, com a globalização e com o discurso cínico da morte das ideologias. “Não acredito que se possa viver de utopia e estou de saco cheio desse papo ‘mude sua rua’, ‘ajude seu vizinho’, ‘melhore seu bairro’. Eu me dou o direito de pensar as questões do mundo todo, grandiosamente. Quero que todo mundo pense na totalidade do que está acontecendo. Pensar em dinheiro e a relação das pessoas com o dinheiro é isso. Sem ingenuidade, com clareza dos processos macroeconômicos e políticos do mundo. Se não for a arte a fazer isso, as empresas é que não vão fazer.”
O terceiro solo, Homemúsica, é um concerto de rock. “Quando você pensa nessas questões, lembra logo do rock. O problema é que o gênero ficou esvaziado dessa impertinência e questionamento, daí me ocorreu que, ao falar dessas coisas, e dessa maneira, estou fazendo rock’n’roll legítimo.” A estréia acontece no começo de 2007, depois da turnê pelos festivais da Europa (com as duas primeiras). Um romance, com o mesmo nome da peça, sai pela editora Objetiva em novembro.
E, antes que fechemos o caixa, vale dizer que Michel ganhou este ano, pela primeira vez, um dinheirinho do governo: Homemúsica foi um dos projetos escolhidos pelo Ministério da Cultura no Prêmio Myrian Muniz de apoio para pesquisa teatral e vai levar 50 mil reais. Será que ele rasga?
Vai Lá: www.michelmelamed.com
