O bom ladrão avisa: na cadeia ou fora dela, um homem roubado nunca se engana
Nos últimos anos preso, passei sufoco enorme. Além da dor acumulada que representa o fato de estar preso há décadas, ainda havia a preocupação de como sustentar a família. Tudo era escasso para quem não tinha nada, como sempre. É de conhecimento público
que na prisão não há trabalho para todos. O campo é fechado e minado. Por conta dos riscos com equipamentos, há muito medo em levar trabalho para dentro das prisões.
Trabalho remunerado era difícil. Segundo a necessidade, impossível.
Nunca misturei família com relações criminosas; tentei preservá-los até de mim. Então só valia trabalho honesto. Minha mãe morreu de repente; até então ela havia sido a mantenedora. Primeiro me sujeitei a qualquer trabalho. Na Casa de Detenção de São Paulo, fiz faxina, pintei parede de cela para presos elegantes e gringos. Depois aprendi o ofício de professor e me apaixonei. Era casamento; coisa para sempre.
Pelas aulas que ministrava aos companheiros de prisão, a FUNAP (Fundação de Amparo ao Preso) depositava no Setor de Pecúlio em meu nome 80% do salário mínimo, que todo mês a mãe de meus filhos vinha buscar na portaria da prisão. Aprendi a fazer bichinhos de pelúcia com um aluno: a companheira comprava o material com o pagamento de minhas aulas. Cortava, costurava à mão e moldava com espuma de colchão.
Mas a Casa de Detenção havia sido condenada à extinção. Não era possível exigir disciplina; a prisão, abandonada, tinha virado um depósito de enterrados vivos. Rolava solto o comércio de tudo o que se possa imaginar: de comida a hormônios femininos para as “meninas” do 4º andar do pavilhão 5, tudo tinha preço, e alto. Aprendi a criar modelos e
meus bichos se tornaram os mais procurados da prisão. Preso não saía para comprar presente – mas continuava tendo filhos para dá-los. Por isso, não dava conta das encomendas. Até folgou! Consegui mandar a companheira visitar seus familiares na Bahia.
A vida na prisão era cada vez mais cara. A alimentação da Casa estava intragável. A população crescia e a verba estancara com o anúncio da desativação. Relaxaram nas exigências da portaria e permitiram a entrada de quase tudo. Havia como comprar carne, tempero e até arroz – para fazer cachaça, bem entendido. Comprávamos o rango que o governo nos mandava, além do que a família trazia. Lavávamos o arroz e feijão que nos
“pagavam” e retemperávamos – o famoso “recorte”. Havia ainda as “feirinhas” na entrada dos andares dos pavilhões, onde se encontravam enlatados e conservados. Certa vez, dia seguinte ao tradicional show de fim de ano do Raul Gil, numa dessas “banquinhas” dos andares, dei de cara com um pôster da Rita Cadillac nua. Em cima, uma das calcinhas que ela tirava e distribuía em seus shows, à venda.
O xadrez e a vaga dentro dele tinha preço. Era preciso pagar para morar na cadeia. Senão, você tinha que se esconder na “triagem”, onde se entocavam os “nóias”. Havia quem comprasse e vendesse vagas e xadrezes, tipo imobiliária. Com o desenvolvimento do poder do PCC, essa prática, como outras que exploravam o preso, restou proibida. No
fim da Casa de Detenção, fomos inaugurar penitenciárias ao interior do Estado. A disciplina rígida não permitia transações. Não havia dinheiro e a economia voltou à moeda primitiva: cigarros. Fui chegando já inaugurando escola como primeiro professor preso, dando aulas e montando a minha pequena fábrica de bichinhos de pelúcia. Fora da prisão, escambava os bichos por maços de cigarro que depois negociava com dinheiro.
FUI ENGANADO E ROUBADO VÁRIAS VEZES
Todo mês era distribuída a cada preso uma folha nominal com a lista de materiais que ele poderia comprar e a quantia que ele tinha para gastar. Para quem trabalhava, as empresas depositavam o pagamento no Setor de Pecúlio, que funcionava como um banco dos internos. De acordo com os pedidos individuais, as mercadorias compradas
eram distribuídas no começo do mês.
Dia do pagamento do pecúlio era um acontecimento: mesmo para quem não tinha nada, era como Natal. Ainda hoje a economia nas penitenciárias segue nesse ritmo. Dinheiro vivo é proibido; portar é considerado falta grave: o infrator cumpre castigo em cela disciplinar – e sua conduta cai para péssima.
O comércio entre presos e jogos de azar (bingos, cartas e dados) também gera sanções disciplinares, e leva um tempo enorme para reabilitar qualquer falta. Só com boa conduta é que o preso pode pleitear benefícios jurídicos para abreviar sua pena.
Saí para o mundão sem saber usar dinheiro. Fui enganado e roubado várias vezes. A preocupação em conseguir sustentar meu povo que, diga-se de passagem, aumentou consideravelmente, continua sendo quase a mesma. O campo é maior, mas as responsabilidades proporcionalmente maiores também. Estou aprendendo rapidamente – feliz da vida só porque posso tentar.
* Luiz Alberto Mendes, 54, autor de Memórias de um sobrevivente, ficou 30 anos guardado. Solto, tem muita história para contar. Seu e-mail é lmendes@trip.com.br
