Caro Paulo,
Conheci a Anita Roddick, fundadora da rede de lojas The Body Shop, dona de um faturamento de um bilhão de dólares. Ela veio ao Brasil para o lançamento do seu livro Meu Jeito de Fazer Negócios (Negócio Editora).
Na capa, cheia de rugas, sem maquiagem, sem retoques e sem medo, Anita mostra a sua cara. Ali está a empresária de um dos maiores fenômenos do mercado de cosméticos do mundo. O jeito dela? Criativo, agressivo e radicalmente de acordo com suas crenças pessoais. O que me encanta em Anita é sua capacidade de apostar contra o sistema empreendendo e ganhando mercado.
CEO com alma
Veja sua reação quando o departamento jurídico disse que ela não poderia usar a palavra ?ativista? no relatório anual porque era uma expressão associada a ?terrorismo?: ?É loucura demais para o meu gosto! Eu vou usar essa palavra sempre que puder. E mais, vai virar o nome de um perfume ? ?Activist??.
Anita se expõe ao risco e banca suas idéias. Muito diferente dos CEOs que se escondem atrás de suas cadeiras e manipulam os números acreditando que o cargo que ocupam os coloca acima do bem e do mal. Não é por outra razão que a manchete de capa da Business Week outro dia era ?The Good CEO?. Depois do primeiro choque com as explosões das ?enronites? (maneira como chamam as empresas tipo Enron), o mercado começa a colher os frutos positivos da experiência traumática.
O pessoal descobriu que o sucesso nem sempre está bem acompanhado. Que, sentado na cadeira de CEO, tem um indivíduo que pode ser muito inteligente e talentoso, mas não necessariamente com mérito para estar ali. Está ficando claro que competência não garante consciência e às vezes pode-se até achar que não precisa dela.
Empresa não tem consciência. Gente sim
Acho que esse é um supersintoma de evolução. Porque humaniza a empresa no sentido de se identificar um ser humano por trás do poder e não um cargo. Porque começa a ficar claro que a empresa tem também a consciência de quem a dirige, e não só a competência.
Isso parece óbvio, mas não é. Tanto não é que tem muito executivo por aí que ainda fala que ?as pessoas são o maior patrimônio da empresa? ? querendo dizer que a empresa é outra coisa, uma máquina, uma entidade que possui as pessoas. Isso é absurdo! A empresa são as pessoas. Prova disso é que só se muda o comportamento da empresa se o comportamento das pessoas mudar.
Essa humanização das organizações é importante para que os seres humanos possam de fato assumir a importância que têm no gerenciamento dos recursos financeiros, naturais e humanos da sociedade. Não se pode mais deixar essa responsabilidade para a impessoalidade e a insensibilidade das empresas. Essa função tem que estar nas mãos de pessoas sensíveis, conscientes e criativas e que, por isso mesmo, criam empresas de verdadeiro sucesso.
Anita está certa. Não existe o jeito de fazer negócios. Cada um tem o seu. Pena que, para muitos, o seu jeito tem de ser o dos outros. É bom que no meio da necessária destruição provocada pelas ?enronites? a gente sinta a esperança e a animação provocada pela presença de Anita (ops, escapou o trocadilho).
Meu abraço,
Ricardo
*Ricardo Guimarães, 54, é presidente da Thymus Branding e vive mudando seu jeito de fazer negócios. Seu e-mail é: ricardo@guimaraes.com.br
