Caro Paulo,
Outro dia conheci um leitor da Trip que me perguntou quem era meu guia espiritual. Surpreendido com o seu interesse e sem um nome para responder, fiquei sem saber o que dizer e, pior, achei que seria presunçoso não ter um guia espiritual para quem esperava que eu tivesse. (Que educação de merda essa que nos faz ter vergonha de “não saber”, de “não ter”, de não atender à expectativa do outro!)
Eu queria dar uma resposta honesta, porque senti que sua pergunta era honesta.
Fiz uma reflexão rápida: não tenho um guia, mas tenho tido a fortuna de manter contato com amigos, mestres, terapeutas, pensadores, livros, filmes, obras de arte, cursos, viagens que de algum jeito mudam minha maneira de ver o mundo e, conseqüentemente, me dão mais clareza sobre o sentido da minha vida (que, mesmo com toda a ajuda deles, continua bem obscuro). Essa seria uma resposta, porém sem nenhuma utilidade uma vez que não trazia nenhuma informação, nenhuma dica, nada.
Fui por outro caminho. Que fontes têm me inspirado ou me ajudado a encontrar pistas para me livrar de minhas inquietações, dúvidas e tristezas? Esta resposta veio rápido e, com segurança, disse a ele: “O taoísmo.”
De fato, apesar de minha aversão natural a “ismos”, reconheço que essa é a fonte. Para mim, a melhor explicação do que é o taoísmo ainda é a primeira, que li na década de 70, no prefácio de Tao, The Watercourse Way, do filósofo Alan Watts, um dos maiores responsáveis por traduzir a filosofia oriental para nossa cultura ocidental: “Modo de cooperação do homem com o curso ou tendência do mundo natural, cujos princípios descobrimos no fluxo da água, do gás e do fogo, os quais subseqüentemente são representados ou esculpidos nos modelos de pedra e madeira e, posteriormente, em inúmeras formas da arte humana”.
Era uma boa resposta, mas eu ainda não estava satisfeito porque parecia que estava oferecendo um desses pacotes de auto-ajuda de prateleira de livraria de aeroporto. A cara de “quero mais” do meu amigo confirmava meu sentimento.
Ele tinha razão. O taoísmo com seus textos e autores, assim como todos os outros “ismos” com seus textos e autores, são apenas fontes. Se a sua existência fosse suficiente para resolver os problemas do mundo estaríamos em outro patamar de evolução da raça humana.
Eu precisava ir mais fundo. Então comecei a procurar no meu dia-a-dia de pai e de chefe de equipe alguma coisa muito essencial que eu tivesse aprendido e que eu sentia necessidade e prazer de passar para os meus filhos e meus colegas de trabalho. E me lembrei de uma frase que vivo repetindo: “Qual é a pergunta? Sem pergunta não tem resposta. Qual é o problema? Sem problema não tem solução”. É isso. E, nessa hora, imediatamente me veio à mente um ditado preciosíssimo que diz: “O mestre aparece quando o discípulo está pronto”.
Sem pretender conhecer toda a sabedoria que esse ditado traz, a compreensão que eu alcanço diz o seguinte: quando você tem uma busca, uma pergunta, uma inquietação, até uma maçã que cai da macieira te ensina a lei da gravidade, como aconteceu com Isaac Newton. Por outro lado, para quem não tem pergunta, o texto mais brilhante, a reflexão mais profunda, o conselho mais pragmático não significam nada. Isto é, se Newton não tivesse uma pergunta em sua mente, podia cair a macieira inteira em sua cabeça e não teria nenhum significado.
Fiquei feliz com essa resposta e acho que o meu amigo também.
E aí passamos a conversar sobre a importância de saber não saber, de cultivar a pergunta, de conviver com a questão. E sobre como nossas escolas e universidades nos deseducam nos ensinando apenas a ter respostas.
Numa época como a nossa, que acorda da ilusão “de que o progresso tecnológico, material, eliminaria as indagações transcendentais e morais e que o desenvolvimento tecnológico seria suficiente para produzir a felicidade e criar o reino da liberdade” (O. A. Pegoraro em Ética e Bioética), saber não saber é tudo de que precisamos como competência para reinventar um estilo de vida mais satisfatório para todos nós.
Enfim, meu novo amigo estava no caminho certo porque ele tinha perguntas.
Meu abraço saudoso,
Ricardo.
*Ricardo Guimarães, 56, é presidente da Thymus e adora uma boa pergunta. Seu e-mail é: rguimaraes@trip.com.br
