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É isso aí

 Caro Paulo,


   Na coluna anterior falei do ativismo como atitude cotidiana na vida de alguém que quer se posicionar ativamente diante da guerra. Mas acabei me esquecendo da maior arma que nós, seres comuns, temos em nossas mãos e que é poderosíssima contra o governo norte-americano: o consumo.
   Preciso falar disso até para honrar a cadeira que ocupo no conselho deliberativo do Akatu, Instituto para o Consumo Consciente. O consumo consciente é um caminho de civilização em que a sociedade aprende mais sobre custos e riscos do seu estilo de vida e pode então fazer decisões mais lúcidas sobre o meio ambiente, os processos produtivos, suas relações sociais, seus produtos e serviços.
   Acredito que é um caminho inteligente de amadurecimento que nos dá mais segurança e conforto para usufruir da vida e suas riquezas. O consumo consciente também ajuda a desenhar mais claro a nova dinâmica de poder dentro da sociedade, porque permite que os consumidores assumam seu papel político com força e responsabilidade.
   O governo norte-americano, por exemplo, tem poder de fato sobre o planeta e, como todo poder entre os humanos, ele emana de uma dinâmica social e econômica que inclui nós como financiadores de suas causas. Nada contra o povo norte-americano nem seu estilo de vida. Palmas para eles numa lista interminável de boas idéias e excelentes contribuições para o mundo. Nada contra as empresas em si que estão fazendo seu trabalho e tocando seus negócios honestamente. Mas a Coca que eu tomo aqui recolhe imposto lá e isso é poder. E eu quero escolher conscientemente a quem dou poder.


Don?t drink it
   Eu parei de comprar Coca-Cola. Em casa não se compra mais Coca-Cola porque não quero aumentar o poder do Bush. Não é uma decisão definitiva assim como a guerra no Iraque não será eterna. Além do que, eu adoro Coca. O que acredito é que a The Coca-Cola Company poderá ser meu enviado à Casa Branca com o meu recado antiguerra. Outro mensageiro escolhido por mim é o McDonald?s. Big Macs e MacFishes estão cortados do meu fast menu.
   Falo dessas marcas até com certo carinho, porque de fato tenho apreço por elas. Falo de marcas porque entendo que marca é mais que empresa. Vejo marca como um contrato social que se aperfeiçoa na dinâmica do relacionamento empresa/mercado. Não existe uma marca a despeito da vontade e da opinião do consumidor. Se o mercado muda, a empresa vai atrás. Tem empresa que puxa pela consciência do consumidor porque sua oferta é mais bem percebida se o consumidor fica mais esperto. Tem empresa que ainda acredita em magia do poder de uma propaganda que ilude as pessoas. Mas mesmo essas acabam indo atrás do consumidor porque o marketing as leva a seguir a tendência, mesmo que inconscientemente.


Seu bolso é uma arma
   Na verdade, é mais produtivo pressionar marcas dirigidas com competência e seriedade como a da Coca e a do Big Mac porque elas são sensíveis aos seus mercados. Portanto, elas que se posicionem junto ao governo norte-americano se quiserem voltar para minha mesa. Não espero ideologia delas ? tomara que seus dirigentes não pensem que marcas têm apenas interesses e não ideologias ?, mas espero, sim, o reconhecimento de uma nova dinâmica de poder na sociedade. 
   O poder político do consumo é grande quando se vive numa sociedade de consumo. Desconhecer essa realidade é escolher a ingenuidade ou a alienação como estilo de vida, atitude muito mais nociva ao mundo do que quem é a favor de guerras. Estes pelo menos se posicionam.
   Aliás, em tempo, preciso deixar claro que o Instituto Akatu não deve se posicionar contra ou a favor da guerra, mas radicalmente a favor do consumo consciente. O Akatu é a favor da consciência e da informação que nos capacita a tomar a melhor decisão em função da fabricação, da especificação e do pós-consumo de um produto. Quem decide é o consumidor. Isto é, eu.
   Fica com o abraço do seu poderoso amigo,


Ricardo

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