Luis Fernando Verissimo e Jupiter Apple não se conhecem. Os dois, no entanto, escrevem de dia e tocam à noite. Ambos são artistas gaúchos e ganham o pão com sua sensibilidade. A diferença é que durante os concertos Apple está trabalhando, enquanto Verissimo apenas se diverte. Comecei a tocar jazz ainda garoto, bem antes da literatura, sola o best-seller nacional dos livros. E confessa: Se pudesse escolher do que gostaria de viver, entre música, literatura e jornalismo, escolheria a música. Mas não tenho capacidade para isso.
Já Flávio Bastos, que foi Jupter Maçã antes do definitivo Apple, sempre tocou guitarra ? e para isso tem capacidade de sobra. Foi tudo igual ao Paul McCartney: ele em Liverpool, eu em Porto Alegre, compara, na boa, só que ele ficou famoso e eu não. Na prática, pelas vielas da cena underground da capital, Júpiter Apple é mais conhecido que Verissimo. Ok, todo o mundo já ouviu falar do escritor, mas nem todos o leram. Alguns, porém, escolhem escutá-lo: Muita gente vem me ouvir tocar por curiosidade, não pela música em si. Mas como os outros músicos são excelentes, mesmo o curioso vai acabar ouvindo um bom jazz, ri-se o tímido autor de As Mentiras que os Homens Contam e O Analista de Bagé, entre muitos, mas muitos outros títulos.
Língua de fora
A bem da verdade é que Jazz 6, o sexteto de Luis, lê muito bem as baladas de Miles Davis, Charlie Parker e Thelonious Monk. Apesar dos óculos modelo despachante e da silhueta nada sexy do saxofonista ? o que destoa um pouco do instrumento de curvas douradas ?, seus solos têm o efeito de uma boa frase. Nessa seara ele arrisca, e imediatamente se autocensura: Um solo de jazz é um pouco como uma crônica; você expõe o tema, faz variações, depois volta ao tema. Talvez seja uma comparação meio forçada….
Já Apple não tem pudor algum em se comparar repetidamente com o beatle McCartney. A esquizofrenia chega a sua namorada e parceira, que Jupiter apresenta como Linda. O talentoso compositor gaúcho prepara o quarto álbum, desta vez com letras inteiramente em português, ao contrário do anterior, o excelente e bilíngüe Hisscivilization. Mas para isso, tem defesa: Antes de mais nada, não tenho preconceito contra língua nenhuma. Mas a língua inglesa, apesar de ter caráter imperialista, que de fato existe, é também uma língua em que você encontra fáceis saídas poéticas. Mais que o português, talvez, afirma o dono de versos como Quero a tua chinelagem/ Quero a metade do seu microponto/ Amei o seu estilo e o seu cabelo/ Curto e grudado na testa/ Até parece que você não toma banho.
Fica difícil para o saxofonista dos livros concordar. Sua obra é inteira debruçada sobre a língua portuguesa ? e boas saídas poéticas nunca lhe faltaram. Verissimo conta que não acompanha a cena do rock gaúcho, apesar de vez ou outra checar os acordes de Tom Bloch, banda de seu filho. Minha preferência musical é outra, meus ídolos estão mortos, lamenta o autor, referindo-se aos monstros negros do jazz. Apple, por sua vez, também não tem o costume de ouvir a literatura mainstream. Sua preferência roda em círculos mais obscuros, como Oscar Wilde ? nada a ver com as Comédias da Vida Privada.
O fato é que Porto Alegre segue exportando literatura quente para o resto do Brasil. Seja em acordes bem escritos, através de um rock de primeira (do clássico Replicantes aos menos conhecidos Nei Lisboa e Frank Jorge); seja em páginas nacionalmente sonoras, do saudoso Mário Quintana ao jovem Mojo Pellizzari. Se Porto Alegre é a Seattle ou a Dublin brasileira, não importa. Lá, às margens do Guaíba, Verissimos & Maçãs continuam encontrando terreno fértil para florescerem. Tudo bem longe do eixo, mas perto do coração. (Giuliano Cedroni)
Discografia
JUpiter Apple
Hisscivilization (2002)
Plastic Soda (1999)
A Sétima Efervescência (como Júpiter Maçã) (1997)
Jazz 6
Speak Low (2001)
Agora é a Hora (1997)
fotos Christian Gaul