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Dropando o inimaginável

João acordou às cinco da manhã, depois de uma noite maldormida. Quando foi para a cama as bóias já apontavam ondas de 10 pés com intervalos de 24 segundos. Ele sabia que Waimea quebraria forte. E o plano era entrar no mar antes de ir trabalhar. Pegou o carro, a prancha (uma Willie Brothers 10’6") e se mandou para o pico, que quebrava com 20 pés sólidos, medida havaiana. João tirou a prancha do carro e ficou na areia. Viu dois caras presos no shore break, sendo arrastados para o canto das pedras. Quando Waimea quebra com mais de 25 pés o canal que dá acesso ao outside fecha e fica difícil varar, e João sabia disso. Enquanto João observava, a baía fechou duas vezes. João ainda ponderava aquela queda quando Maya Gabeira, filha do senador, entrou no mar acompanhada por Danicks Fischer. João deu as costas para o mar, pegou a prancha, recolocou-a no carro e foi trabalhar. Mas a cabeça ficou em Waimea. Precisava entrar naquele mar. Fim de tarde, expediente encerrado, João voltou. Agora, Waimea quebrava cruelmente: 45 pés de parede, séries constantes e regulares, entrando na baía de 15 em 15 minutos. João ficou quase uma hora na areia, respirando fundo, sonhando. Por duas vezes, levantou para entrar no mar, e desistiu. Ficou nesse ziguezague mental até que resolveu encarar. Chegou ao outside e ali ficou por alguns minutos, fugindo das séries. Logo deu de cara com um monstro de 25 pés. E ele se perguntou o que estava fazendo ali. Mas foi. Dropou. Voltou. Mais uma. Outra. Outra. E saiu. A sensação, além de alívio, era de realização. João tinha domado Waimea. E esse dia entra para a história da sua vida como um dos mais importantes e memoráveis.

A história, verídica, aconteceu no domingo passado e foi protagonizada pelo brasileiro João Oppenheim, um surfista comum que mora no Havaí. Ele mandou um e-mail para a redação dizendo que precisava contar a historinha. Só não imaginava que seria para tanta gente, mas está aí, e ela ajuda a ilustrar o que significa surfar uma onda grande. Não é sem questionamentos, sem reflexões, medo, adrenalina e dúvidas que homens e mulheres resolvem encarar essas paredes de água em movimento. Toda nova temporada é assim. Surfistas temem pela própria vida e, ainda assim, continuam superando limites.

E a temporada de caça às maiores ondas do mundo vai até março. Esta semana um dos eventos programados para o inverno no hemisfério norte teve luz verde. O Mavericks Surf Contest reuniu 24 atletas, entre eles os brasileiros Eraldo Gueiros, Alex Martins e Danilo Couto, e foi vencido pelo americano Grant "Twiggy" Baker. E uma penca de novos e velhos torneios já foi anunciada. Além dos conhecidos Billabong XXL, que premia o surfista que dropar a maior onda do ano, e do Eddie Aikau, que acontece no North Shore e, apesar dos constantes swells que têm entrado no arquipélago havaiano, de os organizadores ainda não consideraram as condições ideais para a sua realização (o período de espera termina dia 28), tem ainda os novatos The Nelscott Reef Tow In, que será realizado no Oregon, EUA; o Punta Gálea Big Challenge, em Bizkaia, na Espanha; e o Porthleven Challange, na Inglaterra. Em comum, para serem realizados, todos precisam de ondas superiores a 20 pés.

NOTAS

Verão, calor, quentura e mormaço
Esse foi o clima enfrentado pelos 80 bikers que disputaram a prova de 400 km entre Fortaleza (CE) e Teresina (PI), a Cerapió – qualquer semelhança com "será pior" não é coincidência. O pernambucano Edson Vieira venceu a principal categoria. A norueguesa Sandra Klomp venceu no feminino. Ano que vem a prova se inverte, vai do Piauí para o Ceará – "pior será".

Corrida de aventura
Com largada na madrugada deste sábado em Paraibuna (SP), o Try On Adventure Meeting chega à etapa decisiva, com as 50 melhores equipes entre as que disputaram as 41 etapas do circuito em 2005.

Mundial de surfe – WQS
Rob Machado venceu a etapa de quatro estrelas disputada em Pipeline, Havaí, com ondas de até 10 pés. A final teve ainda dois havaianos e o peruano Gabriel Villaran, quarto colocado. Enquanto isso a primeira etapa do ano no Brasil está rolando em Fernando de Noronha (PE).  

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