Drogada e desaparecida

Atrás da ex-modelo Rebeca, sumida na Cracolândia, repórter retrata a vida louca na região

por Arthur Guimarães em

Trip / Polícia / Comportamento

Rebeca está sumida. Pilando um cachimbo de crack com uma pena de pomba, um menino de olhos arregalados senta no chão da Rua Piracicaba, ajeita os farelos do “dado” e narra sua última lembrança da moça desaparecida. “Cruzei ela mais cedo lá no grupinho no final da rua.”

O ponto que ele indica com o dedo encarvoado está logo ao lado. É a quadra seguinte. Em sua cabeça atordoada pelo subproduto mal-acabado da coca, o mundo acaba ali, nas poucas calçadas que compõem a Cracolândia, no bairro da Luz, em São Paulo.

Mas Rebeca não está lá. O único lugar que essa mulher habita é a lembrança dos outros drogados. Pelos relatos, ela tem por volta de 35 anos, é loira, alta, com cabelos encaracolados e pele branquinha, um oásis de beleza no grupo de cerca de 200 trapos humanos que se reúne dia e noite para torrar a rocha.

“Já cheguei a ficar oito dias virado, só fumando”, diz Robson, com extensa relação de passagens em clínicas de recuperação.

Com o dinheiro chegando sempre em gotas, vindo de esmolas ou tomado de pedestres, os nóias são obrigados a viver um eterno rateio. Na ausência de grana farta, eles se movimentam como formigas elétricas em torno de possíveis investidores. Procuram acionistas para somar um valor suficiente para a compra de um bloco gordo, em uma bagunça que assusta observadores de primeira viagem. Mesmo nessa instabilidade econômica, o consumo é alto. “Já cheguei a ficar oito dias virado, só fumando”, diz Robson, com extensa relação de passagens em clínicas de recuperação. Está há três anos longe da família, morando na rua.

Há pessoas de todos os tipos ali: mendigos que recolhem antenas de televisão no lixo para revender como tubo para os cachimbos, crianças de menos de 15 anos andando em frenesi, grávidas de mais de seis meses serrando pedaços da droga para revender e até uma espécie de feira do rolo. Com uma toalha velha estendida no chão, quase sendo chutada pelos pés circulando a esmo, produtos como um tênis velho, um rádio a pilha, um pacote de bolacha, um copo de vidro e um pequeno calendário estão expostos. Quem quer trocar qualquer bem pode negociar. E, se alguém quiser comprar com o narcótico algum dos itens, será ainda mais bem recebido.

Nesse espetáculo frenético de dependência química, Rebeca se sobressai. “Ela é muito linda mesmo. Tem um rosto lindo, olhos claros, acho que azuis. Chama atenção”, diz a agente de saúde da prefeitura municipal que, circulando diariamente pela região, tenta aos poucos convencer a garota a passar por um programa público de desintoxicação. “Ela é muito simpática também. Quando a encontramos, ela sempre grita para gente: ‘oi, bonita’. E a gente responde: ‘oi, bonita’”, complementa a funcionária do governo, que pede para não ser identificada.

Rebeca F.
A moça sumida conta aos quatro ventos que era modelo. Num banco da Praça Princesa Isabel, logo após tomar um enquadro nervoso da Polícia Militar (PM), uma colega de Rebeca lembra como a amiga era orgulhosa do passado nas passarelas. “Andava sempre com uma revista debaixo do braço. Tinha fotos dela só com uns pano bonito. Tinha até umas meio sem roupa. Dizia ela que desfilou naquele, naquele, como é mesmo? Fashion não sei o quê”, recorda-se, com um olhar que, mesmo entorpecido, passa a sensação de um carinho profundo, talvez falso.

Nas ruas do centro, moda para Rebeca é se prostituir. Soropositivo, como apontam as agentes da prefeitura e demais conhecidos, ela faz programas rápidos por até cinco reais. É o triste carma das mulheres viciadas. Sem força e autoridade para cometer bons roubos, acabam vendendo o corpo para comprar cascalho para encher os cachimbos. O sexo é feito em qualquer canto, muitas vezes com clientes também alucinados, ou nas espeluncas gentilmente chamadas de hotel da região.

O corpo das mulheres que pipam pedra é sofrido e esquelético. A rotina ostensiva da marginalidade deixa marcas de facas, cigarro, sarnas e feridas

Nos quartos, normalmente cama e privada, uma mais suja do que a outra, o cheiro é forte e não se sabe bem do quê. É uma mistura de fumaça, bolor, tudo salpicado por um aroma que lembra querosene, provavelmente uma herança de alguma balada recente de outros viciados. O corpo das mulheres que pipam pedra é sofrido e esquelético. A rotina ostensiva da marginalidade deixa marcas de facas, cigarro, sarnas e feridas, além de dilacerar aos poucos os dedos das usuárias, queimados durante as tragadas em transe.
 
Cracolândia sem histórias bizarras é como Picasso sem tinta, Ferrari sem combustível. O hotel em que Rebeca morava chama-se Papai Rodrigues. Lá, ela realmente encontrava um pai. Era Seu Carlos, um senhor negro prosador, simpático e brincalhão. Quando perguntado, ele conta com entusiasmo ter sido o idealizador da boate Love Story, irmão de autoridades do samba e malaco "para caralho".

Apenas a última característica pode ser comprovada. Seu Carlos se diz ex-parceiro de Rebeca. “Dava cinco pedras por dia para ela, mas fumava tudo e ficava doidona. Não ficava mais em casa, vivia na rua. Para mim, mulher tem que ficar com o parceiro”, diz ele, em uma madrugada qualquer. “Mas não lavava mais minhas roupas. Ficava tudo aí, jogada. Mandei ela embora, para não bater nela. Sempre faço isso: mando embora antes de encher de porrada”, esclarece. Na boca dos nóias, Seu Carlos era um “gigolô de puta pobre”.

Essa expulsão é o motivo mais provável para o sumiço da garota na Cracolândia. Como conta o colega de quarto dela, o antigo namorado veio resgatá-la recentemente. “Veio aí e levou ela. Saiu com mala e tudo. Disse que ia fazer alguma coisa para melhorar ela. Não quero nem conversa com esse cara, nem sei para onde eles foram”, conta o senhor, em frente ao Papai Rodrigues.

Outra explicação para o desaparecimento de Rebeca está nas constantes batidas policiais, ações que pode fazer os usuários migrarem. Mas, apesar de intenso, o tráfego de viaturas circulando pelos entornos não ofusca totalmente a criminalidade. "A loira", como a polícia é chamada, é vigiada por olheiros em cada esquina: quando os carros passam, os drogados já começam uma coreografia ensaiada. Começam a levantar, erguem suas malas e pertences, agarram seus cachimbos na mão, recolhem seus mantos e passam a andar até uma outra sarjeta.

Crédito: Nelson Mello
Crédito: Nelson Mello
Crédito: Nelson Mello
Crédito: Nelson Mello
Crédito: Nelson Mello
Crédito: Nelson Mello
Crédito: Nelson Mello
Crédito: Nelson Mello
Crédito: Nelson Mello
Crédito: Nelson Mello
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Crédito: Nelson Mello
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