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Dores

Esta noite, sem sono, estive a ponto de chorar na madrugada. Pensava nas dores das pessoas que não conheço bem; esquecido das dores minhas que conheço bem demais. Às vezes, ver os outros sofrendo pode nos tornar egoístas, satisfeitos, conformados com as dores que temos. Nos sentimos até privilegiados por não estarmos sofrendo tanto, centrados em nós, retirados do conjunto daqueles que sofrem.

Acho que todos sabemos que as coisas não estão de fato em nossas mãos. Que vivemos precariamente, fingindo até para nós mesmos que estamos no controle de tudo. Tudo bem que a Aids só se pega se der mole. Concordo em parte. E aqueles que já nasceram com? Ontem, no Estadão, havia uma reportagem sobre uma mulher que nasceu com Aids. Foi o primeiro soropositivo a fazer uso do coquetel que reduz a doença de mortal para crônica. Pois é, ela havia dado a luz naquele dia uma criança sem o vírus. O marido, pai da criança, também não foi contaminado.

Mas o que dizer do câncer? Certos tipos há como prevenir, mas outros já nascemos com. As doenças hereditárias, que controle temos sobre elas? Claro, há os estudos sobre o genoma. Já conseguimos seqüenciar o genoma de algumas doenças. No tempo, conseguiremos controlar isso também. Viveremos 120 anos, como afirmam os cientistas, livres de doenças. As dores físicas serão extintas. Bem poderia ser agora, não é mesmo? Essa dorzinha crônica de intestino que me persegue há anos poderia ter sido eliminada no meu nascimento e eu nem a conheceria. Que maravilha!

Você que me lê conheceu alguém sofrendo de câncer em sua fase mais aguda? Já estive com vários companheiros em fase final, no extinto hospital da Penitenciária do Estado. A dor transpassava. Ver doía mais ainda. Correr é que não podia. Era preciso ficar e acompanhar. Afinal, era um ser humano que se despedaçava em dor. Existem doenças piores, como o fogo selvagem, por exemplo.

Esse tempo em que o homem padeceu de doenças físicas vai virar história. Não parece meio injusto que só as gerações futuras poderão viver essa dádiva? Não acho, de verdade. Eles nascerão sem culpas também, então merecerão. Não destruíram, não devastaram, não acabaram com nada. Diremos: mas que culpa pessoal temos disso tudo? Somos todos culpados ou então não há nenhum culpado. Às vezes penso que discuto essas coisas à toa. Talvez até isso que parece desastre pode estar dentro do plano de perspectivas sobre o homem. E consertar, recuperar seja a fase dois do empreendimento.

E as dores da alma? Acho que essas serão um pouco mais difíceis, mas plenamente extinguíveis. A maioria delas provém da desinteligência do homem no desenvolver de sua história. Às vezes se trata até de doenças desenvolvidas pela estupidez humana. O ciúme é uma delas. Ninguém é dono de ninguém e ninguém é suficiente para ninguém. A idéia de família que temos necessariamente se ampliará. Não haverá mais gravidez nem maternidade. Todos seremos mães e pais de todas as crianças. Acabando a posse o ciúme, seu apêndice, restará esvaziado.

Mas e agora? Não podemos ser livres e felizes ainda. Principalmente porque não podemos fazer o que é realmente importante fazer, para nos sentirmos dignos de nós mesmos. A vida nos lança ao comum. Com contas a pagar, família a sustentar, filhos a conquistar, horários a cumprir e uma aparência social a manter. Não temos tempo nem para nos preocupar com o que estão fazendo com o mundo. Ficamos omissos e aí nossa culpa ou não-culpa nisso tudo.
Mas e as dores nossas e a dos outros? Como é que fica? Ficaremos com o coração em alvoroço e essa mente inquieta, apenas? Com a vida escorrendo, abortada de seus melhores momentos? Não nos bastamos a nós mesmos, estamos ligados aos outros por extensão. Eles não são nosso limite e sim nossa continuação. Amar não significa possível dor futura, perder-se de si, por mais batidos que estejamos pelos aprendizados da vida. Amar talvez seja a única solução, mesmo que nos peguemos chorando na madrugada, feridos e batidos por uma dor que não é nossa.

*Luiz Alberto Mendes, 54, ficou guardado durante 30 anos antes de se divertir com anzóis; sua experiência carcerária está contada em Memórias de um sobrevivente.
Seu e-mail é: lmendes@trip.com.br

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