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Do que é feito um campeão

Kelly Slater, para muitos o maior surfista de todos os tempos, acha que aqueles que vêm de uma família imperfeita têm mais chances de se sobressair na vida porque a experiência, embora dolorosa, constrói o caráter. A declaração, acompanhada de outras muitas, está em A Biografia de Kelly Slater, Pipe Dreams, escrita pelo próprio e por Jason Borte, foi lançada nos Estados Unidos há um ano e ganhou rapidamente, para espanto de muitos que julgavam que o tema interessaria apenas à tribo, a pompa de best-seller.
Este mês, graças ao esforço dos irmãos Richard e Jefferson Alves, surfistas que em 1989 fundaram a Editora Gaia – um braço da Global Editora que vem se especializando em garimpar lá fora e trazer para cá boa literatura de surfe -, a obra chega às livrarias brasileiras, devidamente traduzida. Para quem quer um aperitivo, na edição da revista TRIP que vai para as bancas amanhã, uma matéria de quatro páginas e exclusiva apresenta em primeira mão alguns trechos do livro, que já chegou a figurar na lista dos mais vendidos nos Estados Unidos.
A explicação para o barulho que Pipe Dreams fez lá fora está no caráter muito humano e pouco heróico com que Slater se insere na própria história. Filho de pai alcoólatra, ele e os irmãos usavam a praia como templo. ‘Quanto mais difíceis as coisas são dentro de casa, mais provável será que nos liguemos em algo fora dela’, explica. ‘O oceano era meu refúgio, a única coisa que sempre estava lá para me ajudar e me fazer sorrir.’ O pai, anos mais tarde, morreria de câncer, no que vem a ser mais um capítulo dramático na vida, e agora na obra, do ídolo. Mas não apenas de lágrimas foi feita a jornada do campeão. Em Pipe Dreams, Slater, sem medo de parecer ridículo (e talvez seja exatamente esse aspecto paradoxal com a imagem que temos de um ícone que dê caráter humano à obra), conta como foi sua hilária e frustrada primeira experiência sexual, como conseguiu escapar de uma namorada casamenteira com quem quase acabou trocando alianças, sobre o período que passou atuando na série de TV S.O.S. Malibu, como a experiência de ator quase acabou com sua auto-estima, e fala abertamente de um assunto que há muito vinha evitando: o badalado romance com a musa Pamela Anderson, com quem teve um relacionamento cheio de idas e vindas por quase três anos: ‘Pam queria mais do que eu poderia dar. Ela queria assentar e começar uma família, mas para um cara de 22 anos essa era a coisa mais distante na minha cabeça’. Por outro lado, não se importa em revelar que acabou sendo traído pela diva e explica detalhadamente em que circunstâncias isso aconteceu. Fala ainda sobre o papel mais difícil de sua vida: o de pai. Em 95, quando ele tinha 23 anos, uma antiga namorada avisou que estava grávida, e o surfista disse que a decisão do que fazer seria dela, mas que ele apoiaria qualquer que fosse. ‘Eu ainda era uma criança. Até aquele dia, tinha apenas uma responsabilidade: vencer competições de surfe. Nunca tinha pagado uma conta, mas havia chegado o momento de crescer. Eu ia ser pai.’ Pipe Dreams vale porque, nesse exercício de autodesconstrução, ele acaba nos mostrando do que é feito um campeão: de frustrações, traumas, tristezas, conquistas e alegrias. Exatamente como você e eu.


NOTAS


WCT – FRANÇA E FIJI
A peruana Sofia Mulanovich venceu pela terceira vez este ano e lidera o ranking com folga. A próxima etapa será em setembro no Brasil. Em Fiji três brasileiros seguem na prova, Slater está fora e Irons está dentro.
SKATE OLÍMPICO
Para um público de 40 mil pessoas, em Thessalonika, Grécia, Sandro Dias venceu no vertical e de quebra repetiu, na segunda tentativa, o 900º.
MERECIDA HOMENAGEM
Há dez anos o Brasil perdeu um grande surfista e empresário, Roberto Valério. O programa Rip, Sportv, dia 9 será dedicado a ele. 

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