Um psiquiatra do Pará usa o pára-quedismo como recurso para cuidar de quem sofre de problemas como depressão e ansiedade
Por Thiago Romero
Uma terapia a 250 quilômetros por hora. Essa é a velocidade com que o psiquiatra paraense José Paulo de Oliveira Filho cuida de seus pacientes que sofrem de depressão, estresse, ansiedade e dependência de drogas. Não se trata de um milagroso e ultra-rápido método terapêutico pós-freudiano. O “divã” do especialista é o pára-quedismo, que ele usa como recurso complementar ao tratamento convencional [em geral, medicamentos e psicoterapia] desses distúrbios. “A idéia é melhorar a auto-estima dos pacientes”, diz o médico, referindo-se a um dos problemas cruciais da depressão e de outras doenças do gênero. Após os saltos, segundo Oliveira Filho, os pacientes conseguem enxergar a vida sob outro prisma: “Eles passam a ser mais audaciosos e otimistas, duas mudanças que contribuem para a recuperação”.
O médico já aplicou o “método pára-quedas”, com sucesso, em 28 pacientes. Ele também pratica o esporte, supervisiona todo o processo, mas não salta junto com quem está sob tratamento – um instrutor habilitado é quem conduz o salto. A primeira experiência do especialista com o pára-quedas aconteceu em 2002, quando atendia um paciente deprimido: o americano Eric Forat, que mora no Brasil há 31 anos. Ele se submeteu a uma bateria de cinco saltos no aeroclube do Pará, em Belém, e obteve resultados animadores. “Não digo que estou curado, mas hoje supero crises de medo com mais facilidade”, conta Forat. “Comparando com o salto de um avião a 4000 metros de altitude, muitos problemas em minha vida se tornaram pequenos.”
Um outro exemplo da eficácia da terapêutica, de acordo com Oliveira Filho, foi o caso de um viciado em cocaína que conseguiu substituir o prazer da droga pelas sensações que a queda livre proporciona. Ou melhor, substituiu o vício no pó pelo “vício” na adrenalina dos saltos e virou pára-quedista. “Numa clínica, ele poderia ter entrado péssimo e saído desacreditado. Nesse caso, entrou péssimo e saiu com um reco-nhecimento social bem maior”, diz o médico.
Ele ainda não tem uma explicação científica para a melhora dos pacientes – a evolução do tratamento é medida pelas consultas e depoimentos sobre os saltos. Mas acredita que a queda livre provoca transformações neuroquímicas no corpo por causa das altas doses de adrenalina. “Trata-se de uma resposta neural extrema, como se o cérebro do paciente fosse um prédio que acende todas as luzes de repente”, afirma Oliveira Filho. “Isso modifica o pensamento, as emoções e o comportamento do indivíduo.” O psiquiatra Rodrigo Dias, do Hospital das Clínicas de São Paulo, afirma que os esportes são capazes de minimizar os sintomas, mas alerta que o ideal é identificar as causas reais do problema e tratá-las. “Na depressão, por exemplo, a atividade esportiva ajuda. O tratamento principal, porém, deve ser feito com medicamentos e psicoterapia”, afirma Dias.
