Desde muito pequeno percebi que eu era do “contra”, como dizia minha mãe. Não concordava com nada que não me viesse muito bem explicado. Quando me ensinaram que no mundo haviam somente os “malandros” e os “otários”, e que a natureza do primeiro seria fazer o segundo de bobo e tomar o que ele tivesse, eu entendi com a maior facilidade. Nem precisei questionar muito; eu já imaginava que fosse assim. Havia os ricos, os pobres e os “tomadores”, precisamente nós, os sem-futuro. Só depois fui perceber: os resultados práticos foram devastadores para mim. Acabaram com a maior parte de minha vida. Já dentro da prisão, condenado a mais de uma centena de anos de prisão, entrei em contato com o livro. Então que fiquei mais esquisito ainda. Comecei contestando os valores do ambiente carcerário onde vivia. Estava preso e não conhecia ninguém com minha capacidade de trabalho (trabalhei a vida toda na prisão), que lesse mais (devorei a biblioteca da prisão), ou mais honesto que eu em tudo o que fizesse. Nunca gostei de futebol, não torcia para time algum (gostava de voley); não apreciava samba (preferia rock); gostava das bandas inglesas e não das americanas; detestava novela e possuía todo um arrazoado do por quê não gostar. Discutia com funcionários, presos, diretores, com quem quer que me impedisse e nem sempre me dava bem. Costumava dizer que não havia visto cobra, cavalo ou tigre na cela-forte (nunca vi cela “fraca” também); que havia encontrado seres humanos por lá. Afirmava que aquela era a parte que me cabia do mundo. Mas já não era. Os livros haviam me presentado com grandes asas. Alcei largos voos, meu pensamento ia fundo. Ao sair eu arrogava: nada era melhor que um mês na cela-forte para uma boa higiene mental; era como um retiro nos Alpes Suiços. Ficava dias sem ver ou ter contato com gente e afirmava que não há nada melhor para se colocar as idéias em dia. Mas trinta dias (às vezes 90 dias, foi aumentando) de cela-forte sem as palavras era o que mais doia. Eu lia a embalagem do sabonete e da pasta de dentes mil vezes, até ler sem nem olhar. Ainda hoje, quando entro em shopping center ou supermercado, gosto de estar sozinho. Ninguém aguenta me acompanhar. Leio cada embalagem, cada anúncio, cada oferta, cada tudo o que tiver letras. As pessoas não têm paciência comigo, mas eu entendo: também não tenho com elas. Também não aguento novela, BBB, Globo, TV aberta, revista Veja, moda, mídia, lobis, política (embora acompanhe para não ficar de chapéu atolado nos olhos), jornais todos (embora leia o Estadão todos os dias), programas de auditório, livro de auto-ajuda e todos os tipos de enganação.
Hoje me identifico com o escritor contestador, aquele que questiona e quer saber para poder dizer com precisão. Busco a palavra, a frase precisa que transmita exatamente o que eu quero e até careço dizer. Aquela sentença que contenha somente as palavras absolutamente necessárias e exatas para dizer o que precisa ser dito. Sinto-me sempre em elaboração, em profundo processo de remover escombros para encontrar valiosas raridades. Quero ir muito mais fundo nisso, queria fazer profundas pesquisas, saber origens, raizes e escrever ensaios, discutir profundidades. O problema é o tempo. Não o tenho de modo a que possa desperdiçar em nada que não seja vital, profundo ou essencial. Acabo traindo a mim mesmo, gastando esse tempo precioso nos prazeres da vida sem me dar conta de que não estamos aqui para gozar. Um dia eu tomo jeito.
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Luiz Mendes
02/01/2014.
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