Desespero

Moral fora da prisão não tem o menor valor. A consciência foi pasteurizada e plastificada

por Redação em

Uma das coisas que mais me surpreenderam, após cumprir mais de 30 anos de prisão, é que moral aqui fora não tem o menor valor. Há um conjunto de normas de conduta prescritas por uma ordem social determinada a integrar o indivíduo ao sistema para que este o sirva. Isso não tem nada a ver com moral. Até muito pelo contrário. A tal ordem social está submetida à lógica do mercado. Esta, por sua vez, vive em busca de vantagens onde a vida humana acaba por nada valer. A consciência foi pasteurizada e plastificada. Está pronta para consumo.

Na prisão, moral é a dignidade do indivíduo. A vida ali é exposta aos mais graves perigos. Dignidade é tudo o que o preso possui. É isso que o defende e mantém firme ante os fatalismos de sua condição. Há coisas que preso não faria. Denunciar é uma delas. Preso do convívio jamais se vingaria de outro, denunciando-o. Isso lhe é absolutamente imoral. Claro que regras existem para que as exceções se destaquem. Fariam pior. Matariam, trucidariam, mas não cagoetariam. Assassinar, na prisão, não incide na moral. Às vezes até faz parte da honra de um homem. Para quem esteve preso, denunciar não é só mesquinho e desprezível. É crime de pena capital.

Eliane voltou ao bairro depois de um ano e nove meses de prisão. Fora cooptada pelo namorado, que estava preso. Inexperiente, foi presa com drogas na portaria da prisão. Seus pais moravam no norte do país. Extremamente humildes, sem condições de lhe dar assistência. Amargou dias de solidão e privações.

Chegou aqui há cerca de quatro meses. Uma amiga a abrigou. Aos poucos fomos tentando integrá-la. Ela estava plenamente disposta a reiniciar a vida. Não somos capazes de esquecer as dores, mas sempre podemos sobreviver a elas. Tentamos colaborar de modo que a dessocialização promovida pelo aprisionamento não prejudicasse a garota.

Sua primeira frente de batalha foi a documentação. Sempre exigências descabidas e lenta burocracia. Restava agora encontrar trabalho. Com um pouco de sorte, indicações e toda uma rede de pessoas que apóiam, conseguiu. A garota foi trabalhar na casa de uma família. Tomaria conta de uma moça com cerca de 30 anos de idade física e uns 5 anos de idade mental. Adorou a menina-moça e conquistou a recíproca em poucos dias.

Pensei em fazer e me arrependo de não haver feito. Quis fotografar, guardar registro da alegria e do prazer de viver que Eliane exprimia no rosto, naqueles dias cheios. Chegava do trabalho cansada, mas a satisfação de viver brilhava no fundo de seus olhos. Estava feliz. Aquela família parecia feita para ela. Afeiçoou-se de verdade à menina. Tomavam banho, brincavam, passeavam, se alimentavam e se divertiam juntas. Havia amor e carinho.

Cido é homem maduro, forte e ameaçador. Vive de pequenos trabalhos e bicos. Apaixonou-se por Eliane. A garota nem pensava em corresponder. Julgava-o velho, careca e sem atrativos. Sua conversa não a agradava. A insistência dele em conquistá-la só faz que se afastassem cada vez mais. Ela tinha alguém a quem queria e que trabalhava. Tentava apenas se dar meios para atingir seus objetivos. Ousava esperar sua vez de ser feliz.

Quando Cido, depois de rechaçado em suas pretensões, a viu com seu eleito, ficou puto da vida. Quem era aquela pessoa? O que aquele sujeito tinha que ele não tinha? Reconheceu: alguém que ele era obrigado a respeitar. Mas não podia, aquela vagabunda não podia trocá-lo assim. Bufava, queria vingança a qualquer preço. Nada o impediria.

Quando Eliane chegou ao trabalho, a patroa esperava. Por que não contara que estivera presa? E por tráfico de drogas. Um homem alto, calvo e forte, aparentando cerca de 45 anos, batera à porta de sua casa na noite anterior. Viera contar de sua prisão. Dissera mais. Que ela era viciada em drogas e transava com todo homem que aparecesse. Desconfiou, parecia coisa de homem despeitado. Deu esse desconto e foi procurar. Infelizmente, as informações do homem foram confirmadas. Soube da prisão e o artigo do Código Penal pelo qual ela fora presa. Não queria explicações. Ela foi despedida.

Eliane saiu da casa chorando. Não quis se despedir da menina-moça. A mãe diria qualquer coisa. Encontrei-a quando saí para comprar pão. Sentamos na escadaria da padaria e ela desabafou. Chorou e, quando se recuperou, seus olhos doíam nos meus. Nem sequer pensava em vingança. Sua tristeza era maior que isso.

A ex-patroa estava cheia de moral ao despedi-la. Como uma ex-presidiária em sua casa? Nem sequer pensou que a tinha em casa há quase um mês e sua filha a amava. Cido, honrado trabalhador de moral ilibada, posava de herói. Vangloriava-se no bar de haver protegido uma família de uma traficante.

E agora? Claro, a moça vai atrás de novo emprego. Mas está desesperada e insegura porque acha que ocorrerá novamente. Saberão que ela esteve presa e demitirão. Quem pode lhe garantir o contrário?
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