O livro se chama A Desobediência Civil. É o número 17 da coleção Pocket da L&PM. Uma coleção de clássicos da literatura mundial e vendidos a preço barato em lugares inesperados. O número 17 é bem pequeno (14cm x 17cm) e fino, muito fino (78 páginas) o que faz justiça ao nome da coleção. Pocket em inglês siginifica bolso e este livro dá para enfiar (com perdão da palavra) até no bolso traseiro de uma calça jeans. Comprei o meu exemplar de A Desobediência Civil na farmácia – isso mesmo na farmácia, e se não me engano paguei na época R$ 1 (não sei o que é mais surpreendente se comprar um livro na farmácia ou pagar um real por ele). Pelo preço dá para perceber que faz muito tempo que o comprei e ele, talvez por causa disso, ficou esquecido em um canto espremido entre outros livros de aparência mais robusta.
O livro foi escrito por Henry David Thoreau (1817-1862) que de acordo com a contracapa “foi o pai-fundador do anarquismo, para o que este pequeno e fulgurante ensaio é o livro do Gênese. Com Thoreau, ademais, o verbo se fez carne: individualista empedernido […], durante uma breve incursão que fez ao vilarejo de Concord, a humanidade – representada pelas autoridades legais – declarou guerra a Thoreau […] Thoreau redigiu este texto ardente, incontido, ferino e definitivo, a Bíbilia dos libertários. Tão poderoso que anos mais tarde, nas mãos de Gandhi, serviu para derrubar um império”.
Mas e daí?
Thoreau foi o primeiro a colocar, por escrito, a idéia de que o Estado não deve interferir em nada na vida do cidadão. Decidiu que não ia obedecer mais as leis (o que em se tratando de alguém que vivia como um eremita nas montanhas de Massachusetts não deveria ser muito difícil) e ponto final. Muito bem, preste bem atenção: não estou defendendo Thoreau ou seu manifesto de desobediência civil. Apenas digo uma coisa. Que sou parte desta minoria de pessoas que, neste país, é obrigada a usar o avião para poder trabalhar. E o que tem a ver a aviação com Thoreau? É que faz não sei quantos meses que tudo o que envolve um aeroporto, no Brasil, é sinal de confusão e incompetência. Outro dia, depois de ter de ficar sentado por horas e horas em uma daquelas cadeiras que fazem a bunda escorregar até quase cair no chão, no aeroporto de Congonhas esperando um vôo que nunca decolou, tive um estalo. Os caras que mandam, as figuras que têm poder de decisão, os que deveriam regular e fazer as leis serem cumpridas em nosso país devem ter, todos, lido o livro de Thoreau em algum momento.
Deputados, senadores, governadores, prefeitos, ministros, assessores, enfim, seja quem deveria fazer as coisas andarem para frente, devem ter feito um pacto secreto. Decidiram que o Brasil seria o primeiro país no mundo em que os princípios de Thoureau seriam aplicados de cima para baixo. A partir de quem manda, e na verdade não acaba mandando nada, porque nada resolve, para quem obedece e não tem o que obedecer. Chacoalharam tudo isso um pouco e pronto: resolveram utilizar os aeroportos brasileiros como experiência e seguir ao pé da letra a primeria frase do livro que diz: “O melhor governo é o que governa menos”. Thoreau, esteja ele donde estiver neste momento, deve estar dando muita risada. Todo o conceito de anarquia, no século XXI, cabe em um aeroporto.
* J. R. Duran, fotógrafo e escritor, defende a obediência civil a coisas simples como… horários
