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De noite na cama

O sono, essa morte sem responsabilidade, sempre foi um dos meus maiores problemas, desde criança. Nunca consegui dormir bem, a não ser dopado. Invejei demais amigos meus que dormiam em qualquer lugar e a qualquer hora. Era encostar a cabeça e apagar. E eu ficava ali, olhando, sofrendo a solidão noturna de quem não dorme. Acho que sempre fui mais solitário que os outros por conta disso.

Quantas noites virando para cá e para lá, os ossos da bacia doendo, dentes crispando e algo se movendo dentro de mim, como uma cobra ondeante, num travo azedo de vinagre. Ficava ali, na cama, como uma fratura exposta, pensamentos nascidos do reino das sombras, onde o brilho da noite é opaco. Abraçava o lado escuro, a milhas e milhas de qualquer lembrança boa. Torturantes noites em que, como ave noturna, com a cabeça encolhida quase entre as pernas, tentava esconder o que de mim ainda restava.

Aprendi truques. Lavava os pés com água quente, antes de dormir. Funcionou por um tempo. Logo lavava o pé tantas vezes, sem resultado, que a pele de baixo engruvinhava. Depois foi masturbação. Era masturbar à noite (não esqueçam que eu estava preso) e desmaiar. Virei um viciado. Não demorou para que tivesse problemas de fraqueza e tontura. Mil métodos tentei. Rezar não foi o primeiro nem o último, foram muitas incidências e, às vezes, ainda dá certo.

Às vezes, tinha medo quando a noite se aproximava. Uma energia áspera e ameaçadora surgia do nada. E era periódico. Porque houve longos períodos em que, quando chegava a hora do silêncio na prisão e as luzes eram apagadas, o alívio se esparramava por entre neurônios, nervos e músculos. A noite descia sobre meus olhos cansados como se os fechasse. Dormir era uma felicidade.

Pagando em dobro
Dormir sempre foi o refúgio do preso. Quem dorme está em liberdade, é a máxima da prisão. Nem essa liberdade me foi concedida sempre. Vivia de dia como todos, e à noite, como poucos. Dizia sempre aos companheiros que era covardia eles dormirem tanto enquanto eu não conseguia o mínimo. Cumpri o dobro da pena que eles. Nunca quis tomar comprimidos, calmantes. Sabia que eu era tão doente que me viciaria. Nunca mais conseguiria dormir sem psicotrópicos.

Preso com insônia está perdido. Não tem para onde ir. Não pode fazer o mínimo barulho (é regra: preso não acorda preso). Houve momentos em que, para ir ao sanitário à noite, era preciso pular entre corpos adormecidos, colados no chão da cela. Ficava ali, de costas no chão, feito louco a exacerbar pensamentos.

Aqui fora tenho várias opções, inclusive a de não dormir. Posso sair, ler, estudar ou até escrever, como agora. Pequenos números, ali à direita da tela, dizem que são 3h09. Já pulou o dígito. O instante se foi. Tudo o que foi dito já é passado. Mas tem um momento em que o cansaço se espraia, transbordando e rompendo os limites.

E o sono não acompanha. Dor de cabeça, estresse e neurose pesada.

Não há como falar na linguagem que se pensa. Antes me perdia na abstração de pensar sem falar. Hoje sou até contratado para escrever artigos, falar, prestar consultorias, compor mesas de debates e percebo que minha opinião pode até ser ouvida ou lida.

A responsabilidade pesa, o que dificulta mais ainda o sono.

Todas as pessoas têm espaço em mim, embora sempre em separado de mim, daí porque eu também me sonho possível. A raiz de meu passado levanta pedras do calçamento e eu só posso respirar fundo e prosseguir sem parar. Um dia voltarei a dormir o quanto é preciso, por enquanto vou me aborrecendo com o que consigo.

 *Luiz Alberto Mendes, 53, está tentando dormir tranqüilo depois de 31 anos de cadeia. Por favor, faça silêncio. Seu e-mail é: lmendes@trip.com.br 

ilustração  Victhé

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