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Curva Ascendente

O que acontece quando um administrador troca as curvas gráficas por uma montanha real? O consultor financeiro da TRIP, Antonio Carlos Soares, o AC, explorou o Kilimanjaro e concluiu: Nem só de números vive o homem

Fazia 4 dias que nós subíamos a montanha. Na noite anterior, tínhamos dormido 3 horas e iniciado à meia-noite uma caminhada que entrava na sua 6a hora quase sem interrupções. Então eu parei, senti os músculos das pernas ardendo, os olhos lacrimejando e a ponta dos dedos das mãos e nariz queimando de frio. Com minhas 2 garrafas de água congeladas e as últimas pilhas do head-lamp ameaçando seguir o mesmo destino, eu tentei esquecer um pouco a náusea me concentrando na recuperação do meu prá-lá-de-ralo fôlego. Então, sem nenhuma perspectiva de onde deveria estar o topo ou de quanto tempo ainda faltava para o sol nascer eu comecei a achar, do meio dos meus precários pensamentos, que o tal deus devia estar mesmo muito puto.

Todos os anos milhares de pessoas tentam chegar ao topo do Monte Kilimanjaro, a 5,895 metros de altitude. 90% tenta pela rota Marangu, ou rota da coca-cola, que conta com alguma infra-estrutura. Mais da metade consegue, mesmo com um enorme desgaste ou entupidas de diamox, um diurético que regula o nível de fluidos no corpo, reduzindo os sintomas da altitude e aumentando as chances de sucesso em alta montanha. O que leva as pessoas a fazerem isto não é objeto deste texto, que ademais eu não sei muito bem para que estou escrevendo. Seja como for, estou me divertindo, olhando pra trás do conforto da minha casa e lembrando os detalhes de 6 dias que vivi em um improvável mundo paralelo.

A SUBIDA: rota Machame-Mweka

 Dia 0 – Chegada à área do Kilimanjaro

De Amsterdã à Tanzânia são 8 horas de vôo. O avião desce no Aeroporto Internacional do Kilimanjaro, próximo à cidade de Arusha. Na pista de pouso, em meio aos morcegos que voam por toda a parte noto que o nome do nosso avião é Audrey Hepburn. Resolvi tomar o seu lindo sorriso na capa da Revista Daslu como um bom agouro. E esquecer os morcegos.

 Dia 1 – Machame Hut (1,500m – 3,000 m)

Um Toyota Land Cruiser em 4×4 nos leva em duas horas – por entre bananais, casas de campo de empresários emergentes e escolas luteranas – até a vila Machame, onde fica o portão para a rota escolhida. Pagamos as taxas do parque e assinamos o livro de entrada, onde não consta nenhum outro brasileiro. Um dos guias, com mais de 120 estadas no cume do Kili reforça a hipótese da pouca popularidade da montanha entre brasileiros perguntando se o Brasil é na Europa ou na Ásia.

O nosso grupo de 10 pessoas arrebanha 42 sorridentes carregadores. O Job Description é carregar nas costas e/ou equilibrar na cabeça 12 quilos de tralha dos outros montanha acima. O pacote de remuneração é composto por US$ 80 fixos mais um bônus de até US$ 20 variável em função da observância das normas e procedimentos estabelecidos pelos guias e das habilidades interpessoais demonstradas nas interações com os clientes. O plano de benefícios inclui fartas porções de ugali – uma espécie de purê à base de maizena, o direito ao uso de abrigos coletivos e à realização de paradas para um cigarrinho durante os trechos mais longos.

Vendo-os usando polainas de nylon que cobrem do cadarço das botas até os joelhos eu imediatamente aprendo o significado da palavra gaiters, que constava da lista de equipamentos recomendados e que eu tive preguiça de checar no dicionário. Uma vaga insegurança vai tomando conta enquanto trato minha água com tabletes de Iodine (um purificador de água), acompanho a movimentação dos carregadores e realizo, sob garoa fina e gelada, que agora não tem volta. É o primeiro fudeu.

Rapidamente a trilha vai se fechando e você vai sendo absorvido pela floresta tropical. São 7 horas dentro de um túnel de verdes e marrons, andando sobre um tapete levemente ascendente de lama contínua, que chega à metade da canela nos piores pontos. É abaixar a cabeça e pisar nas pegadas de quem estiver na sua frente.

A floresta acaba sem mais nem menos e você se vê envolto pela neblina de fim de tarde em terreno relativamente plano e sem lama (YES!) apesar da umidade. O ar molha, simples assim. É aqui que acampamos. Você come alguma coisa esperando a lama secar, raspa ela do corpo e ZAZ: está prontinho para dormir.

 Dia 2 – Shira Camp (3,000 – 3,840 m)

Acordamos às 7 e subimos por uma trilha íngreme em meio a uma espessa neblina, que o sol fraco não conseguia dissipar. Na verdade, estávamos passando pelo meio das nuvens que, nesta época formam um anel ao redor da base da montanha.

Quando eu já começava a pensar em como eu ia explicar ter estado na Tanzânia por 2 semanas, ter chegado ao cume sem sequer ter visto a montanha, um vento manso afastou as nuvens e por cerca de 20 segundos nós todos pudemos finalmente ter a primeira visão do Monte Kilimanjaro.

Na verdade, o que se vê é o Kibo, o maior dos 3 vulcões que formam o Parque Nacional do Kilimanjaro. Continuamos subindo a montanha até que o sol aparece e passamos a ter vista permanente do Kibo. Deste momento em diante teremos sempre o cume à nossa esquerda e as nuvens abaixo de nós funcionando como um cordão de isolamento contra a civilização. Não se vê as luzes das cidades à noite ou o recorte dos campos cultivados durante o dia. Tudo o que há são nuvens. Não existe mais nada além você e da montanha. E é impossível não se sentir minúsculo. É o segundo ‘fudeu’.

 Dia 3 – Barranco Camp (3,840 – 4,600 – 3,950)

Acordo com a barraca coberta por uma fina camada de gelo. Saímos cedo e vamos subindo lentamente entre blocos de pedras de todos os tamanhos. Estamos no deserto. O clima é extremamente seco e dá para sentir a radiação do sol. Bebi mais de 3 litros de água do início da trilha até o almoço. Foram mais de 6 litros ao longo do dia.

Por todo o caminho vamos encontrando pequenos blocos e lascas de vidro vulcânico negro, alguns com tons de verde e azul. Por volta de meio-dia alcançamos o ponto mais alto do dia, a 4,600 m, ao lado de uma formação rochosa chamada de Torre de Lava. Daí em diante o resto do dia é descida por entre um vale cheio de lobélias gigantes, com até 3 metros de altura.

Chego no acampamento com muita náusea e sono. Foram 7 horas de caminhada. A barraca oferece proteção do vento e da radiação do sol e um cheiro morno de nylon aquecido. Fico lutando contra o enjôo, andando em volta da área das tendas sem parar, me contorcendo de dor de estômago e mal estar e cantarolando James Brown : I feel good, I knew that I would, baby; e pensando : ainda está muito longe de eu desistir. Apesar de nem tanto.

 Dia 4 – Barafu Camp (3,950 – 4,550 m)

Amanheço 100%. O primeiro obstáculo do dia é o breakfast wall, onde o café da manhã de algumas pessoas insiste em buscar ar fresco. É uma escalaminhada longa mas com poucos pontos realmente expostos. A vista é espetacular e é possível ver grandes aves de rapina voando em formações triplas ou quadruplas.

O dia é uma sucessão de escalaminhadas e longos trechos de leve aclive e declive. Apesar do sol a pino, fomos surpreendidos em uma das paradas por uma nuvem rápida que surgiu do nada, descarregou uma pancada de granizo sobre nós e desapareceu em seguida. A paisagem toda é muito dramática, com paredões de pedra recortada intercalando vastos campos inclinados de areia alaranjada e pedras marrons e pretas. Em algumas passagens as pedras estalam sob os pés com o som de vidro estilhaçando.

Ao longo do último platô a Rota Machame conflui para a Rota Mweka, levando-nos ao acampamento de Barafu, onde chegamos após 8 hs de caminhada PolePole (em tradução livre : devagar, devagarinho). Os músculos das pernas dão um leve sinal de esgotamento. O acampamento fica na borda de um penhasco e já houve mortes nesta área. Bom saber.

Minha estratégia era me poupar ao máximo até o quarto dia e avançar até o limite durante o ataque ao cume. Foram 3 meses de preparação física com cerca de 2 horas de treinamento por dia, 6 dias por semana. Mesmo assim eu já estava bem ‘zuado’ e o topo ainda parecia impossivelmente pequeno e distante.

Um dos guias olha o cume, vira e pergunta : Você está pronto para a montanha ? Eu nasci pronto – respondo sem vacilar, vacilando forte por dentro. E quase sem ter comido nada durante o dia.

 Dia 5 – Ataque ao cume ( 4,550 – 5,895 – 3,100 m)

Fui acordado à meia-noite. Meia hora para colocar todas as quatro camadas de roupas e checar o equipamento e outra meia hora olhando para uma tigelinha de papa. Eu olhava e pensava, hoje vamos consumir mais de 6 mil calorias, eu preciso comer. E não comia. É perigoso eu desmaiar no escuro. E não comia. Está todo mundo comendo. E não comia. Então empurrei 3 colheradas bem rápido, engolindo direto. A vista turvou, o estômago revirou, eu fiz cara de macho e agüentei firme. A incrível vitória de um homem sobre um prato de papa ! É o fim de carreira total.

Ligamos os head-lamps e começamos a caminhada. O céu tem tanta estrela que dá para ver umas áreas meio enevoadas formando um rastro nítido : é a via láctea.
À medida em que subíamos o frio ia aumentando. Após umas 2 horas de caminhada as pilhas do meu head-lamp congelaram e ele apagou. Troquei por outras que eu trazia junto ao peito, coloquei mais uma camada de malha e continuei. Eu andava 1 hora e quando olhava no relógio só tinha passado 15 minutos. Eu cheguei a achar, sem sacanagem, que a porra do relógio tinha congelado. Que nada, é a falta de referências visuais e o cansaço. A determinado momento eu entrei em um ritmo meio hipnótico, olhando as botas do guia e controlando a respiração. Muito longe e muito alto via-se um grupo de luzinhas movendo-se lentamente. Minha respiração começou a ficar muito pesada. Eu chupava ar a 100% do meu volume pulmonar e depois tinha que empurrar ele prá fora com um sopro. A esta altitude o oxigênio disponível é a metade do que há ao nível do mar. Em uma parada eu percebi que a garrafa de água que eu trazia na cintura havia congelado. As minhas mãos doíam muito com o frio e cheguei a pensar que ia conseguir um problema sério no dedinho esquerdo. o cume parecia uma idéia muito longínqua, existente em algum plano imaterial e acessível apenas na imaginação, como a lua ou marte.

Fazia 6 horas que eu andava morro acima congelando no escuro e quando o sol nasceu eu tinha vontade de chorar de desespero. Me administrando no limite eu senti um breve reforço de ânimo quando o guia apontou para o alto e soltou : o Gilman’s Point é ali. Ali na puta que pariu. É o terceiro fudeu.

É claro que não estava nos meus plano desistir agora. Aliás, eu tenho certeza de que eu só pararia desmaiado, mas mesmo assim o desânimo era monstruoso. Eu queria respirar ar de verdade, beber água limpa e dormir. Parei no mínimo umas dez vezes e o pico não chegava nunca. Parece que não, mas acaba.

O Uhuru Peak é marcado por uma enorme placa de madeira de extremo mal gosto. Atrás da placa há um precipício até a base da cratera, enquanto da sua frente, a uns 700 metros, há um glaciar, que foi o que nós vimos de diversos ângulos diferentes por boa parte da viagem. Às O8:20 hs, literalmente sem conseguir falar, eu chego ao cume do Kilimanjaro. Cara, isso é muito bom. Não dá pra descrever, mas é muito bom.

Fiquei menos de 10 minutos no Uhuru, completamente no osso e depois iniciei a descida, que é uma foda. No caminho, com mais oxigênio disponível, meu estômago dá sinal de vida. Eu paro e vomito o almoço. Beleza pura. Eu devo ter perdido uns 5 quilos nos últimos 2 dias. O bom selvagem queria ter uma experiência de montanha verdadeira e não quis tomar diamox. No acampamento eu sonho acordado com coca-cola e durmo 12 horas até a manhã seguinte.

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