Sonhei um dia em ser escritor. Um sujeito profundo cuja infelicidade e sofrimento mais intenso guardassem em si uma doçura, uma esperança. Depois me iludia pensando que escrever seria como aliviar, desatar nós, absorver o incompreensível e o inaceitável. Só agora pude entender que escrever é como um carinho, apenas ficar ao lado, velar, sofrer e morrer junto. Escrever é alimentar o prazer de existir. Escrevo porque estou muito satisfeito em viver e quero, com minhas palavras, alinhavar gentilezas e costurar no forro as ausências. Enquanto isso, gostaria que o destino continuasse movendo céus e coisas, como sempre fez. A palavra escrita dorme com a música, e eu tenho meu coração voraz, à espreita. Sou meu projeto e é só nele que existo, porque é nele que me realizo.
Escrevo também porque caio. Porque erro e me perco o tempo todo. Também porque tenho medo da censura e do preconceito, e a palavra me acolhe sem julgamentos. E nada é grande o suficiente para fazer vencer meus medos pessoais. Sei que sou anacrônico, já que tudo está na base do “fique rico ou morra tentando”, e eu cada vez mais poeta, sozinho e silencioso. Rastreando pistas, querendo entender por que preciso me perder de ser salvo, exatamente aquilo que me haviam negado.
As idéias me voam como passarinhos enquanto respiro rente ao chão, brotando da vida, com caule, folhas e frutos. Crio como a água que encontra seus caminhos vencendo obstáculos, longamente. Escrevo talvez porque tenho pensado que o amor deve ser próprio, e não exista de outra espécie. O resto me parece troca. Como uma flor que não pode perder tempo, condenada a ser bela, abrir-se em alegria intensa e concluir seu ciclo rapidamente.
Naquela hora da tarde em que os raios de sol parecem se inclinar e o verde das folhinhas recebem dourado nas pontas, penso que viver não é apenas se deixar ser devorado pelo tempo. Nada é tão grande e barulhento como imaginamos ou fazemos. Antes, quase tudo é frágil e fugaz, flutuando ao sopro, como uma bolinha de sabão. Porque nada responde mais concretamente ao propósito de existir do que conseguir prazer ao existir.
A escrita é a ciência que prepara o homem e o espaço para a explosão do prazer, da alegria. Mágica, também alimenta e motiva o prazer de existir. Já nas chamadas escritas rupestres, o homem das cavernas manifestava seu prazer em viver, desenhando animais que devorava e figuras humanas em atividades sexuais ou de poder. Poder também causa prazer, e dos mais eletrizantes. Nas religiões orientais, temos livros sagrados milenares, escritos e ilustrados, que falam das centenas de posições para o prazer sexual. Parece que, atualmente, a linguagem, criada para revelar, expor e ser consumida, foi desvirtuada de suas funções. Funciona mais para esconder, guardar e preservar. Como produto da razão, também tem sua dose de culpa nos desvios que a razão levou o homem. Mas, como certeza, as palavras são filhas, vozes caladas de alguma coisa que quer falar. O problema é que o homem é bastante estúpido, se for avaliá-lo por mim. Talvez a ilusão só comece de fato quando ela foi perdida, como no meu caso. E genial também, compõe-se de imensidão, vazio e todos os preenchimentos possíveis.
Sinto que fui mal forjado. Meu olhar é torto, como torto e oblíquo é meu modo de encarar a vida. Acho que posso ser criativo como artista, mas não fui tão criativo enquanto esperteza de viver. Ou até fui, depois de determinado momento. A princípio, não consegui viver como todos. Matei, roubei, fiz cagada. Não cabia em meu próprio corpo e muito menos no que haviam me dado por vida. Depois, fui obrigado a admitir: havia errado fragorosamente. Em conseqüência, sobrevivi 31 anos e dez meses às piores prisões do país.
Camus achava que o sofrimento, ou a miséria mais extrema, guarda em si uma espécie de felicidade. Discordo frontalmente: felicidade é sentir prazer com o que se está existindo. Atravessei trocentas rebeliões. Acho que não existe nenhuma parte de meu corpo que não foi espancada pelo menos uma vez. Há pessoas que precisam sofrer muito para aprender. Sou uma delas. Somente quando descobri que podia ser criativo, que poderia inventar meios de convivência por meio da arte de escrever, é que entendi qual meu lugar no mundo. Hoje procuro misturar. Criar incessantemente para preencher minha vida de significados e viver com criatividade para jamais voltar à rotina desagregadora.
Claro, tudo seria assim ótimo, não fosse eu humano, como uma represa, sentindo-me vazar aos pouquinhos, escravo da ansiedade e da voracidade de viver.
[composto por Luiz Alberto Mendes em 02/10/2006]
