Caro Paulo,
Adoro conhecer idéias que me provocam e perturbam a minha base de crenças. Gosto mais ainda quando estou duvidando das minhas próprias crenças e alguém chega e chuta o pau da barraca me deixando criativamente inseguro com minhas certezas. Pois, mais uma vez, Antonio Negri, o mesmo de Império, me ajuda a duvidar de minhas opiniões e a reorganizar as idéias.
Quando esta Trip estiver nas ruas, o mais novo livro dele, Multidão, também estará disponível nas livrarias. Por conta desse lançamento, o Estadão de 09/10 publicou no caderno Aliás uma entrevista com o filósofo e cientista político que diz que “a democracia representativa é um sistema fundado sobre regras de corrupção (…) que delega poder a alguns indivíduos mais ou menos corruptos”, e ainda que “Lula é o menos corrupto de todos aqueles que estão no poder (…), do governo de George Bush ao governo italiano de Silvio Berlusconi.
Não é bom ouvir isso de um pensador que você respeita. Principalmente quando ficamos indignados com esse mesmo Lula que recebeu no Planalto os corruptos do PT e decidiu não chamá-los de corruptos, mas apenas de pessoas que cometeram erros.
Tenho medo de continuar meu raciocínio, mas minha natureza me impede de parar no meio: se o Negri está certo, o Lula é apenas uma rica, natural e escancarada manifestação desse sistema? E talvez a gente devesse ficar contente de ter como presidente da República o menos corrupto dos políticos? Vamos admitir que sim. Mas aí o que fazemos? Vamos todos nos educar para, com competência, conviver e usufruir da corrupção? Vamos desistir de todos os projetos que dependem da honestidade das pessoas para darem certo? Eu não consigo.
Preciso acreditar que, assim como a juventude é uma fase da vida que passa com o tempo, a corrupção também é um comportamento que passa com o amadurecimento da sociedade.
Eu acredito que pessoas maduras de verdade não corrompem e não se deixam corromper pelo simples fato de esse não ser um jeito inteligente e sustentável de organizar a sociedade contemporânea.
Eu preciso acreditar nisso para me levantar da cama amanhã cedo.
E é o mesmo Negri quem me dá esperança de dias, sistemas e homens melhores. Ele traz a idéia de “Multidão” como milhões de “pessoas que se comunicam furiosamente, fora de controle de qualquer Estado, sem o estímulo de velhas ideologias e sem as limitações de fronteiras nacionais, que caminham para a extinção”, como sintetizou Carlos Marchi, que o entrevistou. Ele diz que “a Multidão pode construir uma consciência de transformação profunda. Transformações que já estão acontecendo: a classe operária é uma classe fechada sobre si mesma, organizada pelo capital, exclui os pobres, exclui as mulheres, em boa parte, e atua dentro de um conceito diretamente produtivo. A Multidão inclui as mulheres, os pobres, os imigrantes; compreende todos aqueles que produzem no terreno social e não simplesmente sobre o terreno industrial”. A Globalização e a Multidão provocam “uma nova organização do espaço e do tempo (…) desestabilizadora, de ruptura da moderna estrutura de poder”. Para dar maior consistência à ação da Multidão ele traz também a idéia do “comum” que é diferente do que é público ou privado: “é o ‘comum’ que nos permite ampliar a nossa liberdade (…), em nossa civilização nós fazemos 3/4 das coisas do nosso cotidiano sem a presença do Estado (…) São coisas que fazemos dentro do patamar de liberdade das relações que estabelecemos entre nós. E a riqueza disso está na abundância das nossas relações sociais. O ‘comum’ é a coisa mais simples e bem repartida que existe no mundo, são as ruas, as escolas, os idiomas, todas as coisas que nem sempre damos conta mas que devemos administrar no nosso dia-a-dia”.
Tesão. Negri fala de um novo ambiente global-tecnológico que desestabiliza o poder institucional e estabelece o poder individual que, conectado, pode muito mais do que qualquer grande poder político ou econômico. A notícia é boa porque a manipulação do poder e a corrupção de bastidor tem muita dificuldade de vingar nesse ambiente.
Claro que tudo pode dar errado porque o momento é de ruptura e desestabilização. E dos escombros da era industrial podemos decair mais ainda ou renascer para uma sociedade formada por pessoas mais bem informadas, conscientes, individualmente mais poderosas e simplesmente não corruptas. Negri estará em São Paulo para palestra e lançamento do livro no teatro Oficina. Vamos juntos? Quem sabe rola uma matéria para a nossa Trip. Te ligo para combinar.
Meu abraço.
Ricardo
*RICARDO GUIMARÃES, 56, é presidente da Thymus. Seu e-mail é rguimarães@trip.com.br
Ilustração Sesper
