Ícone do site Trip | Conteúdo que transforma

Corpo Tunado

*Por André Caramuru Aubert

Você tem duas alternativas. A primeira é fazer aquelas coisas todas, como freqüentar academia, praticar yoga, maneirar na deglutição daquela picanha gordurenta, preferir alimentos orgânicos, não comer qualquer coisa que tenha gordura trans, beber com responsabilidade, não fumar, não tomar drogas, dormir oito horas por dia, jamais comer pizza à noite, preferir florais de Bach a antibióticos… A segunda é fumar à vontade, encher a cara, se lambuzar num cheese-calabresa com maionese extra e em seguida dormir relaxado, porque você tem fé na ciência e as pesquisas sobre reposição artificial de órgãos prometem que, em breve, você poderá cultivar um clone de seu fígado dentro de um porco, o qual, uma vez no processo de ser transformado em presunto, o cederá gentilmente a você. Ou então, você poderá usar peças artificiais mesmo, mecânico/eletrônicas. Não parece bem melhor do que ginástica? Vejamos um rápido histórico das conquistas ciborgues: 1950, primeiro implante de pênis artificial; 1962, reposição integral de um quadril; 1968, implante de joelho mecânico; 1978, implante de substituto de aparelho auditivo interno; 1982, coração artificial (o paciente sobreviveu por 112 dias); 1990, primeiro caso de terapia genética; 1993, implante de braço biônico com movimentos funcionais inclusive dos dedos; 2000, olho artificial; 2003, implante de chip no cérebro de ratos para substituir danos localizados; 2005, rosto artificial.
O futuro? A combinação de pesquisas em muitas áreas do conhecimento está abrindo possibilidades impressionantes. Criar um braço mecânico com mão e dedos que funcionem obedecendo ordens do cérebro é um ótimo exemplo de como podem ser somados conhecimentos avançados sobre biotecnologia, robótica e neurologia. As pesquisas com células-tronco são outra frente com potencial enorme. Elas já viabilizaram, por exemplo, o desenvolvimento experimental, em laboratório, de fígados “personalizados”, que poderiam ser, uma vez “prontos”, implantados nos pacientes necessitados. Sem risco de rejeição e poupando a vida do porquinho supra citado. A rigor, com a evolução das pesquisas, é possível que virtualmente qualquer órgão do corpo humano possa vir a ser recriado em ambiente externo para posterior implante.
Podemos então pensar seriamente em demitir o personal trainer e botar fogo no alface? Na verdade, por um lado isso seria, digamos, um pouco precipitado. Por outro, é bobagem associar um comportamento saudável a coisas chatas. Você sabe o prazer que pode extrair de uma intensa sessão de yoga? (eu não sei, mas tem gente que diz que sabe). Mesmo que algum dia, quando estas tecnologias já estiverem banalizadas e você puder incluir na lista do super-mercado, junto com o arroz, o açúcar e a cerveja, um par de pulmões novos, “já que os meus estão com mais de dois anos de uso e não tenho o mesmo fôlego de quando eles estavam novos,” é difícil acreditar que tal atitude tão desprendida com o próprio organismo poderá deixar alguém feliz. Ou será que estou sendo muito conservador, e as novas gerações chamarão os que gostam de manter em bom estado as peças originais do corpo de, simplesmente, caretas? Não sei. E de qualquer modo, como naquelas mulheres em que vemos claramente que a cirurgia plástica foi um pouco demais, haverá sempre o risco de querer virar ciborgue mas terminar frankenstein.

*André Caramuru Aubert, 44, é historiador, cria software móvel e está pensando se faz yoga ou encomenda um fígado novo.

Sair da versão mobile