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Construção

POR LUIZ ALBERTO MENDES*

Cari é uma pessoa que está comigo desde que me conheceu. O Espaço Holístico, seu habitat, me acolheu como residente.

Ao tomar conhecimento de que empregados de uma multinacional procuravam espaço para ação social, resolveu logo o problema. Cristina, sua esposa, dirige a ONG Portal de Ajuda e tem contato direto com comunidades carentes. Foi por meio dela que conheceu Daniel Guerra, líder da Horizonte Azul, uma comunidade extremamente necessitada de atuações sociais.

Ele conhece bem a intensidade que dedico ao meu trabalho com oficinas de leitura e escrita. Conversamos muito quando as apliquei em algumas penitenciárias no ano passado. Sabia do tamanho de minha vontade de trazê-las aqui pra fora. O amigo aglutinou idéias e formulou proposta. Que tal aplicar minhas oficinas para o povo da comunidade, em projeto financiado pelos empregados daquela multinacional? Pronto, as pontas estavam amarradas.

Mergulhei com ele, há quatro meses, na luta por viabilizar o projeto. Nos reunimos com diretorias e depois com os demais funcionários da empresa. Foi fácil convencê-los de que as oficinas seriam importantes para a comunidade. Com o apoio financeiro conquistado, Daniel, já nosso aliado, convocou a comunidade para conversarmos. A aceitação foi entusiástica e instantânea. Mal acabamos de contar a novidade e já tínhamos inscritos para duas turmas.

A responsabilidade agora era toda minha. Procurei meu material de trabalho e senti tranqüilidade. Havia consistência. Mesmo assim, fui procurar minha amiga e orientadora pedagógica, Maria das Graças Abreu. Passamos horas reexaminando métodos, dinâmicas, textos, atividades e objetividades. Organizei o plano das aulas e sabia que estava mais que preparado.

Campeão em ansiedade
Tomei um susto ao iniciar no dia 19 de maio, quando encarei a sala com 30 adolescentes e pré-adolescentes. Sabia que seria assim, mas não tanto. Todo princípio é difícil, e este não poderia ser diferente. Com dificuldade em estabelecer a relação e me comunicar, fui tateando cuidadosamente na tentativa de sentir os jovens.

Na primeira aula não me saí muito bem. Sempre fui campeão em ansiedade, e isso atropelou um pouco minhas falas. Mas já tinha um texto de cada participante falando de si mesmo para estudar. Acredito no ensino porque ensinar é, essencialmente, trabalho, esforço concentrado. E foi o que fiz. No dia seguinte devolvi os textos corrigidos, todos com um comentário, tentando aproximação pessoal.

Nas aulas seguintes derramei o que possuía de melhor em meus conhecimentos sobre leitura e escrita. Havia elaborado apostilas com organogramas de texto, de criação e textos significativos de autores diversos. Fizemos teatro, criamos dinâmicas novas, recitamos, lemos, debatemos aquecendo idéias para escrever. O tema da oficina foi sonhos, no sentido de ideais. Os textos produzidos falavam dos sonhos de cada um: dificuldades e obstáculos para realizá-los e uma revisão tipo “quem sou eu e o que é mesmo que eu quero?”.

A turma se integrou completamente nesses dez dias em que estivemos juntos. Acabei me apaixonando por cada um deles. Esforcei-me ao máximo todos os dias a fim de seduzi-los para o que considero a mais requintada forma de arte: a leitura. Ela desenvolve o imaginário, a capacidade de criar e a invenção. Digo sempre que as pessoas que me apresentaram os livros me salvaram. E é isso que busco: apresentar os livros às pessoas como forma de agradecimento àqueles que lembraram de mim.

Ao fim e ao cabo, no último dia, os empregados da Verizon Business, acompanhando o sucesso do empreendimento deles, decidiram promover uma comemoração de encerramento. Os jovens falaram, gritaram, agradeceram, comeram doces, tomaram suco natural, dançaram e pediram mais. Mais tempo para aprenderem mais. Choramos juntos, a emoção extravasou, e eu me senti a pessoa mais feliz do mundo. Havia conseguido despertar a vontade naqueles jovens de entrar no jogo.

Não há nada mais incentivador do que sentir que deu certo o que a gente dedicou a alma para realizar. Com o amigo Cari, Daniel, o povo da comunidade e os funcionários da empresa, construímos um conhecimento e uma amizade que ficarão para sempre.

*Luiz Alberto Mendes, 56, autor de Memórias de um sobrevivente, encontrou nos livros a sua tábua de salvação para não afundar em 30 anos de prisão.
Seu e-mail é lmendes@trip.com.br

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