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Confissões de um punheteiro

Charlie Kauffman, genial roteirista do filme Adaptação, retratou sem pudor o próprio processo criativo colocando – metafórica e literalmente – suas punhetas na tela. O escritor Phillip Roth fez o mesmo com seus romances. E teve o Brahms, com a “Sinfonia Número 4”, e o Tom Jobim com “Desafinado”. Mas hoje, há poucas horas do prazo de entrega desta coluna, não encontro inspiração nem pra tocar uma bronha. [De onde vem a palavra bronha? Ainda se usa ou é uma gíria da minha infância?]

Ponho pra tocar Mighty Rearranger, o novo álbum do Robert Plant, o vovôcalista do Led Zeppelin que, quase aos 60 anos, anda em plena forma. Passou muito tempo na moita e, pelo som que está fazendo, presumo que tenha ouvido muito Massive Attack. Andou pelo deserto do Saara e se apaixonou pela música de Mali: as guitarras etno-jimmyhendricas do grupo Tinariwen e o blues que voltou pra África com Ali Farka Toure. Mighty Rearranger é uma obra-prima.

Volto pra punheta e agora assumo o tema: todo mundo bate, vai bater ou já bateu. Só na punheta, como nos sonhos, o ser humano é irrestritamente livre. Em português punheta exprime uma certa simpatia pois tem algo de musical, percussivo: pode-se tanto bater como tocar uma punheta. Outras línguas usam o termo de forma negativa. “Wenker”, punheteiro em inglês, é sinônimo de babaca; o “segaiolo”, punheteiro do sul da Itália, é também um aluno que mata aula; o “pajero” da América Central é um mentiroso; e o “meonen” israelense é uma espécie de pretensioso metido a besta. O equivalente feminino na minha adolescência era siririca. Ainda é? [De onde vem o termo siririca?]

Last call
Há alguns anos eu estava no aeroporto Charles De Gaulle em Paris e meu vôo para Roma já estava mais de duas horas atrasado. Meio que pra matar tempo decidi ir até o banheiro afogar o ganso. Tudo corria às mil ma-ravilhas quando fui bruscamente interrompido pelo alto-falante que anunciava o meu nome, me chamando com urgência para o embarque. Corri desesperado. Entrei envergonhado no avião, passageiros e tripulacão esperavam só por mim para decolar. Encanei que todo mundo sabia exatamente o que eu estava fazendo no banheiro. Pior ainda: no frenesi da punheta interrompida esqueci no banheiro o cachecol de cashmere do avô da Roberta, minha namorada italiana. Ainda tomei uma puta bronca quando cheguei em casa.

Meses depois, a Roberta – com quem eu viria a me casar e divorciar – me flagrou batendo uma. Era o destino que batia na nossa porta. A reação dela foi dramática: foi para a cozinha, se jogou humilhada aos pés da mesa de jantar e começou a chorar. Eu corri para consolá-la sem saber exatamente por quê. Ela quis saber se eu pensava em alguém quando me masturbava. Eu menti: disse que pensava nela. Na verdade eu pensava sempre na sua mãe.

*HENRIQUE GOLDMAN, 40, cineasta, sabe ser feliz mesmo quando está sozinho. Seu e-mail é: hgoldman@trip.com.br

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