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Como tudo na vida

Todos os seres humanos vivem na infância o que eu gosto de chamar de “cena primordial”. É um momento no qual o destino da pessoa se revela, uma epifania que manifesta a essência do indivíduo e evoca o futuro. Meus pais contam que quando eu tinha três anos fui levado a uma fazenda. Me mostraram um bezerrinho recém-nascido e disseram com toda ternura: “Olha, filhinho, este é o bebezinho da vaca”. Segundo meus pais, eu olhei para o bezerro com água na boca e disse: “Que delícia, vamos logo matar e fazer um churrasco”. Essa foi a minha cena primordial.

É uma verdade inegável que eu como para viver. Mas mais verdade ainda é que eu vivo para comer. De manhã já acordo pensando em comida. O mapa de Londres foi todo scaneado na minha cabeça em função de comida e a associação de tudo e de todos com comida é automática. Se me chamam para uma reunião em Notting Hill, já sonho com o pedaço de pizza que vou comer no Arancino. Se vou visitar um amigo muito doente na Edgware Road, a preocupação pela saúde do amigo mal disfarça o prazer que vou ter comendo um shish kebab no Ranoush. Soube na semana passada que vou a São Paulo a trabalho por alguns dias e o primeiro pensamento foi: “Oba, picanha, coxinha, queijo-de-minas, palmito!”.

Adoro observar a contaminação cultural que se dá no mundo por meio da comida. Adoro comer macarronada no restaurante mexicano de Nova Delhi e de comer coq au vin em restaurante francês de Vitória da Conquista.

INJEÇÃO ELETRÔNICA DE CATUPIRY
Pizza me fascina particularmente porque cada cultura projeta algo peculiar e diferente sobre a base de massa. Já comi pizza na China e no Paraguai, e pizza é ao mesmo tempo igual e diferente em todos os lugares. Pizza é uma espécie de Esperanto alimentício, um denominador comum de culturas. Os italianos se iludem pensando que pizza é comida italiana, mas assim como rock e jeans, todos têm direito de traduzir a sua pizza como bem entender.

Há alguns anos surgiu um novo avanço na tecnologia de ponta aplicada a pizza no Brasil: algumas pizzarias passaram a injetar queijo catupiry nas bordas das pizzas. A coisa foi efêmera, uma moda que passou sem nunca pegar direito.

Mas tempos depois a horrível Pizza Hut americana lançou um modelo de pizza idêntico – sem pagar um tostão de royalties à pizzaria Aridino, que inventou a técnica IECP (Injeção Eletrônica de Catupiry em Pizza).

Cada vez como menos carne e não tenho nada contra vegetarianos, inclusive porque sou casado com uma. Mas não suporto o “bonzinhismo” da ideologia de quem pensa que existe menos maldade em comer uma batata frita do que em comer língua de carneiro ensopada. Adoro relembrar aos bonzinhos que Hitler era vegetariano e que, segundo Freud, o vegetariano não é nada mais do que um canibal reprimido.

Há alguns anos fui à Índia fazer um curso de meditação transcendental. Depois de muitas tentativas frustradas fui me lamentar com o professor: “Não consigo meditar porque não paro de pensar no almoço”. O professor respondeu: “Ótimo, então comece focando o pensamento no arroz do almoço e depois concentre-se em um só grão no prato de arroz. Quando esse grão desaparecer da tua mente, você vai estar meditando”. Mas não deu em nada pois minha transcendência empacava no próprio arroz – se era integral, basmati, se era risotto, se era com ou sem feijão, se era arroz-doce ou arroz de sushi. 

Já estava tudo predestinado na minha cena primordial. Sou mesmo um boçal e para mim não existe transcendência. Comigo é tudo na base da macarronada e do frango assado.

*Henrique Goldman, 44, cineasta, manja tudo. Seu e-mail é: hgoldman@trip.com.br

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