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Chora agora, ri depois

Não sou homem de chorar. Tenho amigos que se emocionam no cinema, no casamento do amigo, na bandeirada final da corrida de F-1 e chora. Tem outros que choram porque ficam putos, desesperados, com raiva (ou ao contrário). Eu não. A mim, a única coisa que me faz chorar é a música. Só choro quando estou em um estado catatônico e levado pela música. E quando digo música é apenas música. Vibrações. Me lembro, por exemplo, da noite em que chorei assistindo aos Gipsy Kings tocando para uma platéia que lotava o Madison Square Garden de Nova York. Todos dançando (quase todos sobre as poltronas), embalados no ritmo sincopado da fluência da rumba cigana. Era uma época fodida de minha vida, fodida no sentido de que não era das melhores (“… regrets I have a few, but then again to few to mention… cantaram uma versão do “My way”, imagina?) e por duas horas os Gipsy Kings conseguiram que um sorriso iluminasse meu rosto de orelha a orelha. Queria que aquele concerto não acabasse nunca.

Chorei também, pouco tempo atrás, uma noite em que assisti a um show do João Bosco, aqui em São Paulo. Era a gravação de um CD dele no auditório Ibirapuera. Na hora em que cantava “O Bêbado e o Equilibrista” ele parou de dizer a letra, logo no começo, e a música inteira foi sendo cantada (gerúndio, fazer o quê, as garotas do telemarketing vão me entender) pelo público até o fim. Está lá, gravado, no CD. Chorei uma vez em Barcelona, fim da década de 80 (isso quer dizer que faz quase 20 anos, mas me lembro perfeitamente, como se tivesse sido a semana passada, sei até da cor das meias que estava usando: brancas), noite de inverno. Um amigo novo, o pintor Frederic Amat (que tinha um ateliê tão bagunçado como o de Francis Bacon), me levou para assistir a uma apresentação de Pina Bausch. Na metade do primeiro ato, com a música se repetindo mil vezes, já estava soltando lágrimas pelos olhos como se estivesse tendo uma epifania visual. Eu tinha assistido a algo que nunca imaginava que poderia ter visto mas que não poderia ter deixado de ver na minha vida.

O dia em que abracei B. B. King, também chorei. Mas isso foi em uma outra época, depois de um show que ele fez aqui em São Paulo em uma casa de shows no bairro da Lapa. Era, nos Estados Unidos, o dia de Ação de Graças, um feriado festejado por todos os americanos (depois do Ano Novo é o período com maior tráfego aéreo por lá, e sem apagão). Ninguém lembrou disso, apenas eu. Quando nos cumprimentamos no camarim desejei para ele em um inglês engasgado um “happy thanks giving” e o cara me deu um abraço e uma palheta. A mesma com que ele tinha aranhado as cordas de Lucille durante uma hora e meia para meu arrepio. A palheta, que guardei por muito tem­po, se perdeu em uma das mudanças de minha vida. Desapareceu do fundo de uma gaveta em que tinha descansado por muitos anos e nunca mais voltou.
A única exceção é, às vezes, quando em um aeroporto cruzo com as pessoas se abraçando e chorando (seja nas partidas, seja nas chegadas). Vou junto, no embalo, e torço para que o mundo não perca esses momentos sentimentais e verdadeiros. Mas aí é uma outra história.

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