Coisa de maluco. Não tem amor à vida. Inconseqüente. Essas e outras tantas colocações são comuns para definir certas situações arrojadas às quais se expõem alguns atletas dos esportes que acompanhamos.
Imagens ao vivo, captadas com fotos ou filmes, vistas na TV, na internet, em revistas ou em jornais e que se tornam cada vez mais freqüentes, puxando os limites mais pra cima, pra dentro ou pra baixo, dependendo do esporte.
Entre essas imagens, uma emblemática é a de um garoto sendo chicoteado em uma onda em Maverick’s, mais tarde celebrizada como o ‘caldo do milênio’. Sobre esse momento escrevi há alguns meses:
‘Aos 16 anos, James Michael Moriarity remou para o outside de um Maverick’s (EUA) gigante. Era 21 de dezembro de 1994, dia mais tarde batizado de Big Monday. Remou para sua primeira onda e, quando resolveu desistir de surfá-la, era tarde.
– Fiquei em pé, olhei para baixo e não vi nada senão ar, 35 pés de vazio. Tive uma fração de segundo para pensar: ‘Oh, m….’, quando a prancha voou contra meu corpo e o lip me pegou pelas costas. O impacto foi terrível: fui socado contra o fundo numa terrível turbulência. Tentei me concentrar em ficar relaxado. Fui rolando e sacudindo, e tive sorte de encontrar o fundo com os pés. Demorei muito para subir. Mantive meus olhos abertos e tudo estava preto.
Sabia que, se não subisse logo, a próxima onda estaria sobre mim; então nadei o mais rápido que pude para poder respirar. A segunda onda não foi tão ruim quanto a primeira, mas me rolou um bocado.’
Dias depois, o havaiano Mark Foo morreria surfando em Maverick’s. A onda, então ainda novidade no cenário do surfe, começava a se firmar como a mais temida do planeta.
Aqueles dias na praia de Santa Cruz, na Califórnia, ganharam espaço na mídia. O jornal New York Times, a rede de TV NBC e publicações locais destacaram os incidentes e as titânicas ondas e questionaram como o garoto Jay havia sobrevivido ao ‘wipeout for the millennium’, segundo a capa da revista Surfer.
Parece claro que existe um forte componente genético para as habilidades do californiano. A imensa maioria de surfistas do planeta jamais remaria naquele inferno gelado que para ele era como a Disneylândia.
Mas ele sobreviveu para contar sua história. E não só pela sua cadeia de DNA. Treinou sério desde os 13 anos para desenvolver suas habilidades naturais, e, com certeza, a sorte também estava do seu lado. Cada um tem e conta a história que merece’.
Na história mais recente, a última, Jay não teve a mesma sorte. Fazendo mergulho livre na semana passada em Lohifushi, Ilhas Maldivas, ele desapareceu, sendo encontrado horas mais tarde morto.
Segundo alguns brasileiros que mergulhavam no local, Jay estava indo mais fundo do que eles conseguiam e às 11h30 o deixaram só. Por volta das 14h o atual líder do WCT, Cory Lopez, e um cinegrafista estiveram no local e notaram a bolsa de Jay largada no píer. Mais tarde, como ele não retornou para o jantar, acionaram os mergulhadores locais e rapidamente seu corpo foi localizado.
Aos 22 anos Jay era um veterano homem do mar e um dos melhores na difícil onda de Maverick’s, e, apesar de toda a sua experiência, preparo físico e psicológico, o que deveria ser um programinha tranqüilo, virou fatalidade.
NOTAS
SUPER SURF
Começou ontem com boas ondas em Itamambuca, Ubatuba, a terceira etapa do circuito. Tadeu Pereira defende o título da prova e Tânio Barreto, a liderança do circuito.
RIO SURF
A partir de quarta-feira os melhores surfistas do mundo estarão no Rio de Janeiro para a disputa da terceira etapa do WCT 2001. Tom Curren e Leo Neves foram confirmados como convidados, e o terceiro wild-card deve ir para Victor Ribas, já que o prolongamento da expedição Quiksilver Crossing, atualmente em algum ponto do Oceano Índico, impediu a vinda de Kelly Slater, que era sondado para a vaga.
WQS
O gaúcho Rodrigo Dorneles ficou em segundo na 21ª etapa do circuito de acesso disputado nas Ilhas Maldivas.