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Chatterton

Do que sei, a gente passa pela dor sem conhecê-la jamais. Dá até para entender algumas coisas. Por exemplo, sabemos que não existe isso de “ir para a frente”; “sacudir a poeira e dar a volta por cima”. O embrulho no estômago, coração varado de tristeza e a angústia fininha atravessando a mente a todo instante de parar e pensar, não vão passar coisa nenhuma. Demora doendo.
Mentira dizer que decidimos nossas vidas. De minha pesquisa permanente acerca do humano, descubro que as coisas sempre aconteceram meio que ao acaso. Planos que dão certo são anomalias em nossa história. Sempre falta fazer muita coisa, infinitamente. Aliás, estar humano é ser torturado por esperas e faltas. Se há um plano no sentido de completar ou chegar, acho que ninguém sabe qual é. Provavelmente seja descoberta individual. Dessas herméticas, esotéricas, que a gente nunca sabe no que vai dar e espera resultados com prevenções e dúvidas.

Talvez a única atitude sensata seja admitir, tentar compreender e aceitar fatos para trabalhá-los a nosso favor. De alguma forma, somos obrigados a nos capacitar para encarar nossas perdas. Precisamos levantar para trabalhar no dia seguinte, e no outro também. Incertos do que somos, embora seguros de que não podemos ser diferentes de nós mesmos, buscamos marcar posição aproximada ao nosso centro, para nos manter flutuando.
Quando eu e meu cãozinho (é um poodle médio, dorme aos pés de minha cama.) voltávamos da padaria, fui agredido por cena que me deixou extremamente comovido. Um menino de cerca de 7 anos chorava, gritando que queria Sofia. Estava deitado na calçada de uma dessas lojas de miudezas do bairro, em posição fetal. Duas mulheres tentavam arrastá-lo para dentro, sem sucesso.
Conheço a história e bem por isso doeu mais fundo ainda. As senhoras que tentavam levá-lo para dentro da loja eram amigas de minha mãe. Quando o Tutinha nasceu, eu ainda estava preso, mas soube da notícia. Sofia era uma dessas muitas meninas do bairro que engravidam como se estivessem em mais um brinquedo do Hopi Hari. O pai, segundo Sofia, é um “nóia” que ela não quer ver. Quando saí, o menino já estava crescido. Estuda na mesma classe que Jorlan, meu filho mais novo. Mora ali na esquina e está sempre aqui em casa, brincando com meus meninos.

Foi criado pelos avós, junto com a mãe. O menino chama tanto a avó quanto a mãe de mãe. É confuso, não sabe definir quem é a mãe mesmo. Sofia o tem criado como a um irmãozinho, embora com cuidados de mãe. O problema é que Sofia ainda é uma garota, tinha 14 anos quando pariu. Quer ser feliz, namorar, adora dançar e anda com um grupo enorme de jovens aqui do bairro. E foi assim que ela conheceu o Carlinhos. Estavam namorando já algum tempo, agora decidiram casar. Quer dizer: morar juntos; fica mais viável economicamente. Ninguém mais quer casar de verdade. Papel só atrapalha na hora de separar. Isso de para sempre, sempre acaba, já dizem os Titãs.
Era isso. Sofia mudou para a casa do namorado. Não pôde levar Tutinha porque não há espaço para ele lá. Ela e Carlinhos trabalham e começaram o esforço para alugar e mobiliar uma casa. Querem um lar, junto com o menino. Mas agora ele não está nos planos e não está entendendo nada. Sofre desesperadamente. Vai passar? Sim, vai, mas a ferida que a dor produzir jamais será cicatrizada. Aquele tecido nervoso estará irreversivelmente comprometido.

Observando e por dentro vivendo todo o drama do garoto sem poder fazer nada, deu agonia. Ando pela vida misturando-me à dor dos aflitos e às vezes me perco em sentimentos de impotência, revolta e desmotivação existencial. Senti vontade de morrer, sumir, desaparecer. Doía demais ver, sentir e nada poder fazer. Viver, naquele momento, era uma merda, estava de saco cheio daquilo tudo.
Então, na mente veio a música “Chatterton”, do Seu Jorge, que tanto me emocionou. Ele fala que Chatterton suicidou; Kurt Cobain suicidou; Vargas suicidou; Nietzsche enlouqueceu, e eu (diz Seu Jorge), não vou nada bem. Pois é, eu vou pior ainda e nem sei quem é  esse Chatterton. O sentido da vida, para mim, está no que sinto pelas pessoas, e eu me preocupo demasiadamente com elas. O terrível que as vejo sofrer barbaramente, como esse menino e só posso ficar olhando, estupidificado, querendo acabar com essa merda o mais rápido possível.
Foi um dos momentos mais duros de minha vida. Minha liberdade tem se esvaído no acúmulo de sentimentos não resolvidos. Ao fim e ao cabo, hoje sei, acabamos por aceitar a vida, e nós mesmos, como somos, mesmo sem jamais nos perdoar. Não é maturidade, é desistência mesmo. Viver melhor e ser melhor não é tarefa possível. Viver e estar melhor, às vezes, é tudo o que conseguimos, por enquanto.
Tento corrigir pelo exercício da disciplina e particularmente pela moral. Preso, sempre deu certo. Enfiava a cara nos livros, concentrava e o resultado aparecia. O espaço era controlado, então parecia fácil colocar a vida em perspectiva. Mas, aqui fora, diante da infinidade de liberdades a ser escolhidas, nem para a conduta diária deu resultados. Estar moral quando se anseia por paixão e vida abundante, é estar dividido. Desesperei, quase enlouqueci e fiz muita cagada, mas jamais consegui escapar dessa voracidade de viver que me persegue.

[Composto por Luiz Alberto Mendes em 11/ 01/2007]    

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