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Cela Forte ? 1ªparte

Estava só com a ponta do nariz do lado de fora. Deitado sobre a cama, todo coberto e tentando ler Luzia Homem, um romance que não conseguia prender minha atenção. Eram dezoito horas, aproximadamente. Horário da troca de plantão dos guardas. A contagem passaria dali a instantes, e eu aguardava, como todo preso, pronto para ser contado. É voz corrente que o preso só faz falta se não estiver na hora da contagem. No mais, é apenas número, inteiramente desprovido de importância.


Repentinamente a porta foi aberta, me surpreendendo. Cerca de dez guardas invadiram a cela, todos armados de canos de ferro. Assustado, saltei da cama e coloquei-me de costas contra a parede, conforme mandava o regulamento. Fiquei ali em suspenso, pronto para o pior. Um espasmo na garganta. Aquilo nunca acaba, nem por um segundo. Eles reviravam a cela de pernas para o ar.


? Abaixa o calção! Diz um dos guardas, raivosamente.


? Levanta o saco!


? Agacha!


? De novo!


Me fez repetir o gesto três vezes. Eu parecia uma mola para baixo e para cima. Provavelmente pensavam que escondesse uma metralhadora, ou sei lá o que, no cu. Era extremamente humilhante. Me encolhi, com meu exército de palavras desmantelado e minha alma menos minha.


Determinaram, sem explicações, que eu me vestisse e os acompanhasse. Intimidado pelos olhares ameaçadores, caras patibulares e os canos de ferro na mãos deles, mais que depressa, os atendi. O frio doía nos ossos. Era inverno pintado a negro. Daqueles rigorosos invernos paulistas de cerca de trinta anos atrás. Estávamos no maio de l973. Por último, vesti japona grossa de lã. Peça do uniforme de presidiário da Penitenciária do Estado de São Paulo, naquele tempo.


? Acompanhe-nos! Vociferou o guarda do alto de sua arrogância e prepotência, mais uma vez.


Descemos ao porão. Alguns à minha frente e outros atrás. Era o setor das celas fortes. Se bem não conhecesse nenhuma cela ‘fraca’ por ali. Dentro de umas das celas, mandaram que me despisse. Não estava entendendo nada. Seguia apenas o que me era determinado, perplexo e assustado. Era recém-chegado à ‘ilha de pedra’, não conhecia nada daquilo tudo.


Fiquei nu rapidamente, na defensiva, esperando o que viria a seguir. Umas canadas de ferro, talvez. Mas por quê? Eu sabia que isso de motivo era fácil de eles encontrarem. Há um ano eu vinha sendo espancado e jogado em celas fortes a troco de nada. Estava acuado e ardia a riscar de relâmpagos, como as tempestades.


Para minha surpresa, os guardas saíram chutando minha roupa. Quando me dei conta do que acontecia, a porta de aço foi violentamente batida em minha cara.


Entrei em pânico. A cela estava nua como eu. As paredes eram úmidas, escorriam filetes em gotas de uma água fedida e grossa como óleo. Havia um húmus esverdeado decorando-as, quais margens dos rios de filetes. O chão era de caquinhos de cerâmica, cheio de pequenas poças da água que minava das paredes. A janela bloqueada por grossa chapa de ferro, com furos milimétricos para entrada do ar gelado, cortante. Do teto, em dois cantos, enormes teias de aranhas. Na hora me assustaram. Eram grandes. Depois as agradeci, reverente. Minhas amigas do coração.


O frio fazia estremecer e arrepiar. Meus poros eriçaram. Os dentes batiam. A visão coalhava, filtrando dores e sofrimentos antigos, misturados com os presentes.


Grudei na porta de ferro gelada, como se do buraco por onde os guardas nos espiavam pudesse vir alguma salvação. Meu coração estava aos pulos, o corpo se encolhia involuntariamente e mente a mil. Não sabia o que pensar, o que estava fazendo ali?


Demorou eternidade, não aparecia ninguém. Então passou o guarda com a contagem. Como se ele se importasse, perguntei o que estava acontecendo. Porque me colocaram ali, pelado daquele jeito, com todo aquele frio?


? Você está em regime de castigo! ? Respondeu com prazer. O punhal de seus olhos me atravessava, cristalizando-se.


? Mas por que, não fiz nada…


? Ordens superiores. ? E saiu andando, como se essa fosse toda informação de que eu necessitasse. Ordens superiores! Mas que ‘superiores’ são esses, que porra era aquilo? Perguntei ao vento frio que varria a cela, estupidificado


Já ouvira falar sobre o regulamento da Casa. Os primeiros dez dias de quem entrava para o regime de castigo deviam ser cumpridos nu, sem absolutamente nada na cela. Só o preso. Parece que ouvia os passos da dor andando por dentro de mim e sofri gelado, por entre os dentes.


Não podia ser. Com certeza havia algum engano. Nada fizera para ser jogado em tão absurda condição. Aquilo não estava acontecendo comigo. Comecei a andar de um lado para o outro na cela. Logo o engano seria descoberto e eu sairia, sem dúvida.


Os dentes batiam um ruído sinistro e as pernas tremiam quando parava. O guichê caiu violentamente, me atirei contra ele. Era outro preso. O faxina. Estava distribuindo água, quer dizer, enchendo nossos copos de água. Seus olhos gulosos percorreram meu corpo desnudo. Fiquei envergonhado e muito ofendido. Calei-me. Toda minha capacidade de indignar-me estava agora recolhida. Só queria sobreviver.


? Como é seu nome?


? Carlão, que mora ali em frente, pediu para você tirar a água da privada, quer conversar contigo. Disse o homem com sua voz cansada e pastosa.


? Você sabe por que estou aqui? ? perguntei aflito.


? Não, mas esses dias sai publicado no Boletim Diário, então ficarei sabendo e te falarei. Tenha paciência e espere. ? Sua voz era dura, como suas pupilas de aço.


Após pausa estudada e outra longa e humilhante lambida de olhos em meu corpo, disse-me:


? À noite vou te trazer um rolo de papel higiênico. De manhã apanho de volta. Os guardas do choque virão revistar todas as celas logo cedo.


Não entendi bem; o que tinha a ver papel higiênico com frio? Mas agradeci e fui novamente agredido com aquele olhar libidinoso. Um dia eu me vingaria desse filho duma puta! Pensava. Estava vivo, mesmo que dentro daquele labirinto; ainda conseguia forças para odiar mortalmente.


Atônito, sem jeito, foi a maior batalha para tirar a água da privada. Alguém já tentou? É muito difícil para quem não tem experiência. Mas assim que, cansado, comecei a vencer a luta com a água, o maior burburinho invadiu a cela. Vozes pontudas, arrastadas. Olha o mundo de volta! Percebi, surpreso.


? Quem é que está ligando o telefone? ? Perguntou uma voz rude, entonando desconfiança, saindo de dentro da privada.


Questionou outra voz:


? Quem é você?


Relutante, enfiei a cara na ‘boca do boi’ (privada) e dei meu apelido. Queriam saber qual o motivo que eu viera para a cela forte.


Eram os dois presos da cela forte em frente à minha. Gente, que bom! Abri um largo sorriso. Os encanamentos daquelas privadas davam para uma única caixa de esgoto, que promovia a ressonância.

 
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