Caro Paulo,
A TRIP já se instalou num andar de um prédio grande?
Que eu me lembre, não. Pelo menos desde a Alameda Ribeirão Preto, só me lembro de casas, cada vez maiores, e você na frente delas sempre com ar de dono do pedaço.
Pois é, dono de pedaço é como estou me sentindo, literalmente. Preciso contar minha estranha experiência de trabalhar num prédio – que, aliás, você precisa vir conhecer. É lindo. Fica no 14o andar, está cheio de tecnologia, segurança e mordomia, tem uma vista tipo Central Park de Nova York, porque se vê todo o Jardins – mas ainda não me acostumei. É a minha primeira vez, por isso talvez estranhe tanto. Só duas vezes na minha vida morei ou trabalhei em prédio, e isso foi por pouco tempo, e há muito tempo, na década de 70.
Achei que essa idéia de viver em prédio tivesse evoluído. Mas não. Imaginei que o fato de se dividir o mesmo lugar, o mesmo ar condicionado, o mesmo sistema de segurança e os mesmos serviços caracterizassem um grupo de pessoas com um mínimo senso de comunidade. Mas não.
Por exemplo, logo que mudamos, tive vontade de nos apresentar para as outras empresas vizinhas, porque achei que seria civilizado. Cheguei até a esboçar uma carta contando quem e quantos éramos, o que fazíamos etc, mas aí parei para pensar na distribuição e percebi: não havia jeito. Para quem devia entregar nossa carta? Para o dono das outras empresas? Para o Chefe do Pessoal? Para o Gerente Administrativo? Devia distribuir na porta do elevador? Eu me senti ridículo! Não tinha procedimentos, não tinha maneira, não tinha etiqueta de convívio naquela dita comunidade. Não havia comunidade, na verdade. Nem vizinhos, portanto. E aí eu entendi com clareza o dramático e famoso silêncio do elevador. Tem que ser assim?
Eu vou indo
As relações deviam evoluir junto com a tecnologia de construção e comunicação. Não me refiro a criar oportunidades de conviver com as pessoas fora do necessário – mesmo porque, tenho aversão a estas ocasiões de confraternização e integração. Nem na escola dos filhos fiz o tipo do pai participante de atividades integradoras com mestres e alunos. Mas falo de um senso de pertencer, de certa intimidade por compartilhar algo comum, seja espaço ou interesses. Tenho certeza de que esse sentimento curaria uma boa parte dessa nóia de segurança, desse medo e desamparo que se vê na cara das pessoas que vivem nas cidades.
Parece que existe um gradiente de solidão que aumenta quanto menor é o espaço de convivência: de casas passando por andares de prédios até elevadores.
Deve existir uma maneira de quebrar esse gelo. Talvez um simples olhar com atenção e um cumprimento de ‘bom-dia’ com intenção sejam suficientes. Não precisa perguntar ‘como vai?’, porque a idéia não é ficar íntimo. Mas ter a presença da conexão de quem está de fato conectado e não fazer de conta que a vida é cada um por si, que o prédio é cada andar por si.
Acho que pode começar por aí. Você tem alguma idéia?
Preciso me acostumar. Por enquanto, estou com saudades da Vila, dos novos quitutes que a vizinha Neka sempre mandava para a gente provar e das visitas incertas do vizinho Dimenstein para tomar um café à toa e sonhar uma cidade melhor para se viver.
Venha me visitar. Estou te esperando. Entre pela garagem.
Abraço do amigo e condômino,
Ricardo
*Ricardo Guimarães, 54 é presidente da Thymus Branding, agora em novas e hospitaleiras instalações. Seu e-mail é: ricardo@guimaraes.com.br