POR PAULO LIMA E CARLOS MOTTA
Sidnei Tenucci Junior viaja. Graças a Deus. Um dos frutos dessas viagens sem fim, seja varando os sete mares, seja à frente do miniimpério que pilotou nos anos 80 e 90, de uma formação intelectual sólida, de boas doses de água salgada e, por fim, de um período de provação pesada, que o transformou em algo infinitamente mais sólido, vivo e interessante, se chama O surfista peregrino (editora Cosmmos), tem 128 páginas e contém uma vida.
Pouco antes de lançar efetivamente seu livro, Sidão, um dos primeiros, registre-se, a apostar na Trip como veículo e como movimento, me fez um pedido singelo e carinhoso. Queria que eu escrevesse a resenha de seu livro. E pediu à Trip, mesmo tempo em que me autorizava a malhar, se fosse o caso.
Não é.
Enquanto lia o livro aos poucos, entrou um swell. Nada especial. Um metro e pouco com formação sofrível em Camburi. Nada parecido com as ondas maravilhosas descritas nas páginas da obra em questão. Depois de uma bateria de duas horas em que mesmo sob condições duvidosas a alma se renovou e o corpo trabalhou, um almoço numa varanda de madeira, com uma mesa também de madeira, peixe com farofa e vista para o mar. Sem que eu mencionasse a tarefa que tinha pela frente, o assunto surgiu. Carlos Motta, arquiteto, ao mesmo tempo assunto e colaborador da Trip, companheiro de viagens e contemporâneo do autor, dono da casa, da varanda, da mesa e do peixe, pôs-se a falar sobre o livro, sobre como estava aos poucos sendo embalado pelas cartas que vão chegando e descortinando histórias de Sheherazade na cabeça do narrador…
Como não sou crítico literário mas (acho que sou) um editor, foi impossível resistir à tentação de colher in loco as impressões de um leitor absolutamente envolvido pela obra. Desculpe, Sidão, mas sou um mero repórter. E aí vai o que achei que devia fazer: reportar as impressões do Carlinhos sobre o livro. Sem falsa modéstia, melhor do que qualquer coisa que eu pudesse escrever e ao mesmo tempo em total alinhamento com minhas impressões sobre a obra. (PL)
PEREGRINO NOTURNO As fantasias brincam na nossa mente. Ocupam espaços vazios, espaços que serão depois destinados ao prazer de sonhar, imaginar e viver o impossível. Crianças dialogam com super-heróis em uma fantasia de grande realidade. Nós todos dialogamos conosco, nos transportamos para paraísos, infernos, prazeres e lugares idílicos. Meu querido amigo Sidão soube fazer isso de maneira profunda, criando um alter ego que ama, sofre e incorpora toda a sabedoria que o próprio Sidão adquiriu ao longo de mais de cinqüenta anos respirando. Esse peregrino criado por ele também habita os espaços da minha mente. Sou surfista e amo o mar. Minhas fantasias estão alinhadas com a do meu amigo viajante.
A leitura que o Sidão oferece é deliciosamente confirmativa de que surfar e peregrinar são virtudes que a liberdade proporciona. Tenho lido lentamente o livro. Um ou dois capítulos por noite. Antes de dormir. Já sonado, misturo sonho e realidade. O surfista peregrino passa a ser meu alter ego. Me sinto livre. Surfo em águas limpas e quentes. Sinto um bem-estar como se não tivesse pecados. Acordo na manhã seguinte, mergulhado na mais profunda realidade concreta de um cidadão paulistano, mas, antes de sair de casa para o trabalho, dou uma olhada na caixa de cartas – quem sabe não chegou algum envelope para mim…
Pois é, Sidão, você conseguiu. Você mexeu com todos nós. Você escreveu este belo livro sabendo que iria detonar em todos a capacidade de se relacionar com o fantasioso, com o belo inatingível. Terminei de ler o livro e percebi que, com você, aprendi a ocupar o tal espaço da mente. O surfista peregrino é meu grande amigo. Sonhar é preciso. (CM)
