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Cartas na Messa

Freqüentei muito no verão, na década de 70, a Praia do Sonho em Itanhaém. A do Sonho e a de Cibratel. Lá não era lugar para surfistas, era uma espécie de footing interiorano sobre as areias achocolatadas e escaldantes, em um horizonte a se perder no nada. Um monte de carros parados um ao lado do outro, cheios de figuras sentadas no capô esperando a aparição da mulher dos sonhos, que nunca chegaria. Todos estacionados perto de uma barraquinha de bebidas, onde, num sábado de manhã, experimentei pela primeira vez a caipirinha de abacaxi. A estrada Rio?Santos ainda não existia e as praias do litoral norte eram uma incógnita que só podia ser descoberta e desfrutada pelos surfistas mais fanáticos. Em Itanhaém conheci o Cidão, velho lobo-do-mar com quem jogava baralho, às tardes, na casa do meu amigo Panga. Panga de Pangaré mesmo, grandão mas amigão que, numa noite de Carnaval, na porta do Yate Clube, levou um tiro de revólver ? que ia dirigido a mim. O tiro na verdade não o atingiu: furou a perna da calça boca-de-sino Soft Machine dele, que, naquela época, se usava muito. O que permitiu, depois de ser constatado o furo na calça, que todos os presentes se dessem o direito de encher de porrada o cara que tinha disparado o revólver. Um dia de manhã, com uma ressaca insuportável, conseqüência de um excesso no gim tônica, Cidão me deu o único conselho prático que recebi em minha vida. ?Se quiser encher a cara, não beba gin: beba vodca, que não dá ressaca.? Com os olhos lacrimejantes pela dor de cabeça, ainda pude ouvir a última parte do comentário: ?São as reentrâncias y saliências da vida?. Em portunhol mesmo. O tempo passa, a Lusitana roda, o mundo gira e olhando para trás, por cima do ombro, posso dizer que tem cada uma que acontece nesta profissão, que vou te contar. Pulemos, por exemplo, outra década à frente. Para a dos 80. Duran, o cigano Em certo momento, decidi aprender a ler cartas de tarô. Comprei um tarô de Marselha em uma loja do Bairro Gótico em Barcelona, depois de um curso rápido sobre o assunto com um japonês na Liberdade, aqui em São Paulo ? se isso faz sentido. Nunca li para mim, só para os outros. Talvez porque não acreditasse na coisa, ou porque entendi, desde o começo, que as cartas dão respostas para perguntas que nunca foram feitas. Comecei a ler a torto e direito, especialmente para as modelos que apareciam no estúdio sempre frágeis, sempre prontas para ouvir a qualquer um. Até que uma noite, em Fortaleza, durante uma viagem a trabalho, uma menina que tinha olhos azuis, de quem não me lembro o nome, mas que tinha um rosto lindo, me pediu para ler as cartas. Subimos ao apartamento. Coloquei uma toalha sobre a mesa redonda. Comecei a espalhar as cartas. Fui lendo e contando o que as imagens me traziam à cabeça. Foi interessante: os pensamentos que me vinham nunca antes tinham aparecido em outras leituras, mesmo com aquelas mesmas cartas sobre a mesa. As cartas diziam que a menina tinha um namorado fazia tempo, mas que o namoro ia terminar logo e que ela ia se apaixonar por um cara mais velho. Ela ficou indignadíssima: era impossível que terminasse com o cara, com quem, com certeza, um dia iria se casar. Mais do que indignada, ficou megaputíssima. Levantou, foi embora e a leitura acabou aí. Um pouco mais tarde, recuperado do esporro, desci para jantar. O telefone público do hotel era embaixo da escada. Quando passei, a menina dos olhos azuis estava chorando ao telefone. Futuro embaralhado Sentado à mesa, fiquei sabendo que ela e o namorado tinham brigado feio. No mesmo hotel estava hospedado um supergalã de novela, daquela época, da Globo. Quarentão, boa pinta, voz grave. Ator. Estava na cidade para fazer uma temporada de teatro com uma outra atriz superfamosa. A conhecia de alguns trabalhos anteriores e me apresentou para o galã, que acabei apresentando para todo o mundo à mesa. Dias depois, fiquei sabendo que a menina de olhos azuis, que tinha brigado com o namorado, começou uma história com o galã que durou meses. Mais precisamente o tempo de o galã fazer a turnê teatral e voltar para casa. Se por um lado fiquei aliviado em saber que minhas cartas não mentiam, por outro fiquei assustado com a facilidade de poder olhar para o futuro dos outros. Nunca mais li tarô para ninguém. Por acaso, encontrei o baralho outro dia. O tarô de Marselha continuava dentro da caixinha de papelão, um pouco gasta, escondida no fundo de uma gaveta. Durante uma mudança que, como sempre, espero que seja a última, mas que no fundo sei que não será. Fiquei tentado a ler as cartas, desta vez para mim mesmo ? mas, não sei por quê, me lembrei do Cidão de Itanhaém e decidi não querer saber nada de meu futuro. Preferi continuar crescendo e aprendendo às custas das reentrâncias y saliências da vida.*J. R. Duran, 49, é fotógrafo ? e, de vez em quando, enxerga o futuro. Seu e-mail é: studio@jrduran.com.br

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