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CARTAS MARCADAS

Caro Paulo,

Vou te contar o que aconteceu comigo nesta semana que passou: eu tive a melhor e a pior experiência com platéia da minha vida.

A primeira foi na FEA USP e a outra, dois dias depois, na Administração da FAAP.

Nas duas eu falei sobre Branding para uma platéia de 400 pessoas cada, em cursos especiais de Marketing.
Na USP, foi genial: sintonia total, eu me diverti, eles se divertiram, trocamos numa ótima.
Na FAAP, foi um desastre: apesar do interesse de alguns, tinha um terço da platéia conversando o tempo todo. Eu me estressei e eles se aborreceram. Péssimo.
Porque a diferença ? Porque para uns eu podia ficar cinco horas falando numa boa e para outros nem cinco minutos?
Tentei descobrir a razão do meu fracasso e achei uma pista: os alunos da FAAP eram obrigados a assistir o curso! Daí aquele percentual barulhento de desinteressados. Claro que eu me tornei um chato ali na frente deles. Mas o problema não era eu, era o desinteresse deles.
Foi nessa hora que entendi o que aquele meu amigo que me critica quer dizer com ‘chato evangelizador’.
‘Evangelizador’ é o cara que teve uma experiência legal e que gostaria que outros tivessem a mesma satisfação, as mesmas emoções, as mesmas convicções. Ele quer dividir essa experiência com mais pessoas. Na minha época de jovem a palavra usada era ‘militante’.
‘Chato’ é o cara que fica falando dessa experiência sem ninguém perguntar, isto é, sem que os outros revelem interesse em saber.
Então, o meu amigo tem toda razão quanto ao lado ‘evangelizador’ da nossa conversa. Sou crente, praticante e militante de uma nova visão de mundo que seja mais integradora e humana. Tenho sido feliz assim. E mais, tenho sorte porque o vento está soprando muito a favor dessa visão, fazendo chover direitinho na minha horta.
O aspecto ‘chato’ fica por conta do desinteresse dele e quanto a isso posso fazer muito pouco. Claro que como um bom crente/militante eu torço para que ele acorde – ‘Aleluia, irmão!’ – e comece a usufruir da outra metade da vida, exatamente essa metade tradicionalmente considerada chata, desnecessária, desvalorizada e desglamurizada da busca do significado e do real prazer das coisas banais como trabalho, amizade, comida, esporte, viagem etc. Talvez ele até já tenha sacado tudo isso e só fale essas coisas para encher o saco e marcar presença.
Faz tempo que eu só falo do que sei para quem me pergunta.
Pois é. Está tudo certo, Paulo. Afinal ‘cada um é um’ como já dizia o Tiago, desde seus dois anos de idade. E mais, devo ficar quieto porque o meu ‘evangelho’ diz que não existe o dono da verdade, isto é, tem mas acabou!, agora cada um tem a sua.

NO RASO É CHATO

Mas eu queria marcar posição crítica quanto ao compromisso que algumas pessoas assumem com um jeito leve-divertido-e-inconsequente de ser. São pessoas que decidiram não aprender a nadar em águas profundas e que ficam no raso jogando água nos outros para disfarçar o tédio de não ter nada para fazer.

A verdade é que a vida no raso é chata. Ela se repete dia após dia e a única novidade é que se ficou mais velho. Envelhecer no raso é triste porque se tem a sensação de que aquele mundo de possibilidades na sua frente não te serviu de nada a não ser lembrar que você não foi até o fundo e ficou esperando a onda chegar, morrendo na praia, com você, como você.

Vejo que alguns contemporâneos meus que fizeram a opção do raso- e que de fato eram leves e divertidos- estão ficando pesados, irônicos e tristes com o tempo. Parece uma maldição tipo Midas que transformava em ouro tudo o que tocava e assim morreu de fome. Esses que tinham o dom de tornar tudo leve e divertido estão sentindo agora a falta de consistência e significado, estão morrendo de outra fome.
Para quem não entendeu ou está com pressa, dou um conselho: entre o mar e a terra, fique com o céu. Lá as águas profundas se tornam leves e formam nuvens que pesadas caem na terra, sem erro, eternamente.
Chega de filosofia, Paulo. O outono de São Paulo está me chamando para uma caminhada pelo bairro com o meu velho Rato, meu labrador companheiro.

Meu abraço.

Ricardo Guimarães

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