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Carta aberta para Kleiton e Kledir (?)

Caros Kleiton e Kledir,

Há anos não lembrava que vocês existiam, mas graças a vocês, na semana passada, tive uma experiência reveladora. Acordei no meio da noite e não conseguia mais dormir porque involuntariamente na minha cabeça não parava de tocar “Deu pra ti/baixo-astral/vou pra Porto Alegre, tchau”. Uma dúvida ficava me cutucando: será verdade ou era só na minha imaginação que depois do “Vou pra Porto Alegre, tchau” rolava um gritinho em falsete fazendo um “a ke ke”? O que que é “a ke ke”? Será que “a ke ke” é uma gíria gaúcha que nunca colou? “A ke ke” me parecia muito absurdo para ter existido de verdade, era com certeza um truque da minha imaginação.

Debi, minha esposa, acordou com a minha agitação na cama e quis saber a causa da minha insônia. Mas como explicar, ainda mais em inglês, um “a ke ke”? Não conseguia explicar nem pra mim mesmo o que me fazia sentir este “a ke ke”. Era uma mistura de desgosto com vergonha – de mim mesmo e do mundo. Uma vergonha atávica que sempre esteve dentro de mim, mas só diante do horror do “a ke ke” veio à tona e se materializou em forma de náusea e insônia. Mas paradoxalmente este mesmo “a ke ke” era também gostoso, como um queijo fedido mas saboroso. Eu tentei explicar isso tudo pra Debi. Ela fingiu entender só para que eu calasse a boca e sugeriu que tentássemos fazer um relaxamento que sempre me faz dormir na hora. Ela adormeceu e eu fiquei ali naquele suplício interminável. “A ke ke”…

Com medo de enlouquecer levantei da cama e fui baixar a música na Internet. O “a ke ke” é de verdade! Vocês são dois gênios!! O “a ke ke” é tão deliciosamente ridículo quanto um “zavazavaza” esdrúxulo que a Elis Regina soltava no meio das “Águas de Março” com o Tom Jobim. Mas, Kleiton e Kledir, a delícia e o ridículo vão além na sua obra-prima:
“Quando eu ando assim meio down
Vou pra Porto e… bah! Tri legal
Coisas de magia, sei lá
Paralelo 30
Alô tchurma do Bonfim
As gurias tão tri a fim”
Comecei a cismar com o tri legal também. Agora, sim, que eu não ia conseguir dormir nunca mais. As gurias tão tri a fim!?

Caros irmãos, para mim a vida tem sido uma infindável série de estranhezas tipo “a ke ke”. Quando eu era criança, cismava com o mate gelado que vendiam na praia de Copacabana. No copo de papel vinha escrito “mate filtrado com Sistema Nielsen”. No que consiste um “Sistema Nielsen”? Ou, então, por que os chicletes de caixinha Adams tinham um sabor chamado “uvita”? Que porra é uvita? É sabor uva? E por que então colocaram no diminutivo e ainda por cima traduziram para o castelhano?

Eu quero então vos agradecer porque naquela noite de insônia redescobri o “a ke ke”, e ele sintetiza todo absurdo que sinto pelo mundo, um ao mesmo tempo horror e fascinação, que não consigo articular em palavras. Este “a ke ke”, sem quê nem pra quê, me lembrou que o quê e o pra quê muitas vezes não têm a menor importância.

Canteen, Stoke Mandeville Hospital. Crédito: The Frances Frith Collection / Saiba mais na acp desta edição

*Henrique Goldman, 44, cineasta, é uma figura rara. Seu e-mail é: hgoldman@trip.com.br

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