Ícone do site Trip | Conteúdo que transforma

Carlos Santos vem aí

É seu Sílvio no SBT e seu Carlos no Pará. Trip acompanhou a gravação de um programade TV de Carlos Santos, o ex-camelô hoje milionário que põe fogo na Amazônia

POR BRUNO TORTURRA NOGUEIRA FOTOS NELSON MELLO

Como reis de naipes diferentes, Carlos e Sílvio são quase a mesma coisa. Homens de bem, devotados pais de família, trabalhadores incansáveis que cortam e tingem o cabelo no Jassa. Carlos e Sílvio foram camelôs humildes e monásticos poupadores. São ávidos por reservas e trabalharão até morrer por um belo e vitorioso estoque de dinheiro. Para isso, Carlos e Sílvio preferem difusoras. Rádios, TV, lojas de discos, de eletrodomésticos. Vendem e produzem distração para todos. São especialmente queridos pelas classes médias de baixo, por gente lascada que crê em um deus que influi na loteria. Os dois, nos domingos, são apresentadores de popularíssimos programas de auditório onde mulheres, estimuladas à histeria, chacoalham diante de cantores com playback. Carregam um sorriso fundido no rosto.

Apesar do mesmo sobrenome, da mesma métrica das alcunhas, apenas o primeiro o carrega de batismo: Santos. O resto é detalhe. Lembre: o mais importante é que o Carlos não é o Sílvio. E que agora está sendo aguardado por dezenas de pessoas que ocupam um estúdio alugado no bairro da Lapa, em São Paulo. Entre elas, enchendo um camarim ruidoso, o grupo Falamansa, Amado Batista, um Papai Noel e sua bizarra assistente fantasiada de bruxa. Nas próximas horas, 12 ao todo, vão gravar dez programas. Dez semanas de sucesso total e picos de audiência no Pará, o reino de Carlos Santos.

No andar de baixo, todas as pessoas que enchem a pequena arquibancada de quatro lances vestem vermelho. Necessariamente. Quem está de outra cor… “desce, desce, desce. Pode descer”, explica a sutil animadora de palco. É que estão gravando o especial de Natal. Em seguida o de Ano-novo, com todos de branco. Depois, liberou. Estranho, mas o que toda aquela gente faz ali? Onde se inscreveram, por que se dispõem a mofar ali até a madrugada se Carlos Santos, no fim das contas, é anônimo em São Paulo? E o que essas moças lindas estão fazendo almoçando bisnaguinha e esperando, com chapéus de Papai Noel, a chegada de Carlos Santos no palco? Andressa, 16 anos, responde: “Somos de uma agência de modelo de Jundiaí. Disseram que era um teste para uma novela da Record”. Juliana, 17, “não era da Globo?!”. O repórter tem mais respostas do que perguntas: “Não, é o programa do Carlos Santos, passa no Nordeste”. As duas arregalam o olho: “Sério?!”.

BATENDO PALMAS PRA JESUS

O ar ganha certa eletricidade quando a notícia chega pelo rádio de Edson, o produtor. “Carlos Santos chegou. Copiou?” Sim, copiou… Edson vai para trás do palco e assume os comandos de uma surrada marionete de sapo, o Sapolino, um “respiro cômico” no broadcast de Carlos e seus artistas. As luzes aumentam e junto a temperatura. A animadora passa de carrasca a boba alegre, e incita o povo a gritar o nome de Carlos. Dançarinas erotizadas fazem passinhos de chacretes, o Sapolino entra em frenesi. Carlos Santos surge com seu paletó rubro e calça de um branco cintilante. É Natal. E assim ele abre seu programa: — Quem quer ficar alegre?!! Sim, muito alegre, sabe por que, Sapolino?
— Não, chefinho.
— Porque hoje é o aniversário de Je-sus! Sim, dele mesmo. Uma salva de palmas pra Jesus.
Palmas. Com um approach parecido, evocando alegria e um quê de sucesso divino, Carlos Santos chegou onde nem Sílvio chegou. Ao poder executivo. Dono de lojas, emissoras e terras, nosso herói foi vice-governador de Jader Barbalho no Pará. Jader, esse mesmo, envolvido em uma lista de escândalos tão extensa quanto sua fortuna. No mandato seguinte, o próprio foi eleito governador. De 1994 a 1998, foi o homem mais poderoso de seu Estado. Nem assim largou o microfone. Continuava intacto o Programa Carlos Santos.

Governo, nunca mais, ele jura. “Política é para políticos.” Como assim, Carlos? “Tem que gostar, tem que gostar…”, desconversa. Prefere falar do seu verdadeiro talento, “sou vendedor, é isso”, e de sua atração favorita naquele dia, Amado Batista. “Esse é do meu coração. Vendi muito disco dele.”

Mas Amado ainda vai demorar… Antes vamos assistir a Falamansa, Grupo Pixote, Ley e Mackoy, Kelvin e Pierre, Eduardo Araújo, um mágico, o Papai Noel, o Markito (aquele de boca frouxa que trabalhava no Ratinho) e uma infinidade de playbacks. Antes todo o auditório vai trocar de roupa, muitas bisnaguinhas serão devoradas e as modelos de Jundiaí aprenderão uma valiosa lição sobre testes de novela. Principalmente Andressa, que acaba de ser puxada ao palco, instruída a soltar berros de fanatismo para Ricardo, da dupla João Paulo e Ricardo, que a tira para dançar sob os brados de “lindo, tesão, bonito e gostosão”.

O especial de Natal já passou, caro leitor de fevereiro. Mas fique atento no seu guia. Carlos Santos se prepara para sair do ar nordestino e transmitir para todo o Brasil. Ele quer a Band, talvez emplaque pela CNT. O fato é que o clichê fez-se verdade: Carlos Santos vem aí.

Sair da versão mobile