Para onde vão os cães de rua? O que rola dentro das dependências do Centro de Zoonoses de São Paulo, o destino final das lendárias carrocinhas? Conheça um problema que tem muito mais a ver com o seu descaso do que você imagina
texto e fotos Calé Merege
O cheiro suave de incenso queimando em Santana, Zona Norte de São Paulo, na ante-sala de onde fica a obsoleta máquina de descompressão, foi trocado em poucas horas pelo cheiro acre-doce de urina-fezes-vômito-e-sangue de 76 cães. Era apenas mais uma manhã no Centro de Controle de Zoonoses, instituição folclórica presente no imaginário popular com figuras de sádicos carrascos que transformam poodles em sabão. Mas entre o mito e a realidade há uma grande diferença, fácil de ser expressada matematicamente: para cada Joãozinho que nasce são 15 totós e 45 bichanos que vêm ao mundo – hoje existe 1,5 milhão de animais na grande São Paulo. Desses, 30 mil são sacrificados todo ano.
Espécie de camburão adaptado com duas celas onde os animais são transportados depois da captura, a carrocinha ganha as ruas da capital todas as manhãs à procura de animais soltos, alguns bastante doentes, outros muito agressivos – mas a bem da verdade é bom dizer que muitos são bem fofinhos e inofensivos. Porém o destino é o mesmo para todos: uma jaula para machos e outra para fêmeas, as duas ligadas a mais duas, criando uma espécie de corredor da morte. A cada dia os cães são deslocados para a próxima jaula, até que, no quarto dia, são levados da terceira para o sacrifício. Os mais bonitos, mais bem cuidados ou de raça são logo separados e vão para outra seção, a doação, onde ficam por até uma semana. Só alguns encontram seus donos.
Tubo negro
Por muitos anos o método utilizado para exterminar os animais foi a câmara de descompressão – basicamente um tubo de aço onde os bichos são trancados e em seguida o ar é sugado explodindo vísceras, asfixiando os cachorros e, às vezes, fazendo seus olhos saltarem. Os animais que esperavam na fila ficavam estressados, brigavam entre si, e alguns ainda percebiam o que estava por acontecer e evitavam entrar no tubo. A esses era dada mais uma chance. Quem sabe um dono não apareceria no dia seguinte?
Segundo a dra. Isabel, veterinária e atual diretora do Centro de Zoonoses, há tempos existia a intenção de mudar o método de execução, mas a falta de verba não permitia. No entanto, em novembro do ano passado, um acordo visando aposentar a máquina de descompressão foi fechado entre o Zoonoses e diversas ONGs. O método escolhido foi a injeção letal. Os cães agora são sedados no corredor enquanto esperam sua vez. Do típico vira-lata, passando pela poodle sujinha, até o fila babão, um a um são trazidos para a ante-sala da máquina de descompressão, onde o dr. Werner, um veterinário voluntário da Associação Protetora dos Animais (apais), e uma seringa cheia de tiopental sódico doado, esperam por eles.
Menos 76
Eram 6 horas da manhã, tudo estava muito calmo. Uma ninhada inteira chega aos poucos. O veterinário segura a perna de uma cadela fazendo uma veia saltar e aplica a injeção. Pouco tempo depois, dois filhotes ainda abanam o rabo brincando sobre um vira-lata grogue demais para ficar em pé. Logo em seguida estavam os seis corpinhos alinhados sem vida. Não fosse o forte cheiro azedo, pareceria que estavam dormindo. Às 9 horas já estava tudo acabado. As 76 carcaças dos animais sacrificados no dia 6 de novembro de 2000 foram levadas para o aterro São João, onde foram enterradas em valas comuns. Nenhum deles virou sabão como na lenda. Mas não basta mudar o método de execução. Tem que haver maior responsabilidade por parte do proprietário. O conceito de posse responsável é a espinha dorsal do discurso, tanto das ONGs quanto do Zoonoses. Esterilizar é o primeiro passo para evitar o sacrifício de animais. Cães que passeiam pela rua, donos que largam uma ninhada inteira na periferia, gatinhas que estão sempre fugindo para a rua e voltando prenhas. Tudo isso contribui para um crescimento da população de animais que não pode ser comportado pela cidade. Cabe ao homem cuidar de seu melhor amigo.
ADOTE UM ANIMAL DE RUA – Centro de Controle de Zoonoses de SP, Rua Santa Eulália, 86, tel. (11) 6221 9755/2842
[Calé Merege]
