– “Ele é pequeno!”, diz meu filho Jorlan.
– “É café-com-leite”, completa William, seu coleguinha de classe.
Leonardo e seu irmãozinho concordam, meio a contragosto. O menor, porque quer brincar de verdade, como seu irmão. Café-com-leite significa que ele brinca, mas não vale. Léo, porque está esperando a oportunidade de dar umas porradas no irmão menor, sem ter que enfrentar a mãe depois. O pirralho é muito “folgado” e se aproveita da presença da mãe para espicaçá-lo. E lá saem eles no tiro, no grito e na porrada. São bandidos, afirmam. Estão em guerra com a polícia e a facção rival, como é lá no fundo da favela, ou na novela da TV. Cara de mau, armados de canos entortados, esguichos de mangueira e paus imitando facas, lá vão eles com seus fuzis, metralhadoras, escopetas e pistolas automáticas. Pulam por sobre obstáculos imaginários a disparar uns contra os outros.
Foi com aperto que consegui comprar um Play Station para eles. Queria cortar essas brincadeiras preocupantes. Mas os jogos extrapolam. São extremamente mais violentos que eles. A brincadeira de bandido deles é lúdica e inocente, em comparação. Por exemplo, com eles ninguém morre para sempre. Sempre pode despertar depois, embora as escoriações e hematomas possíveis.
Ele só tem 7 anos e já sabe tudo sobre fuzis e metralhadoras. Muito mais do que eu. O irmão mais velho conhece muito mais ainda, nem imagino de onde tira essas informações (será Internet?) e passa a cultura para ele. Mas já ultrapassou essa fase. Está estudando computação e seu negócio agora é Internet. Tem três e-mails e endereço no Orkut com mais de 30 amigos registrados. As configurações de meu micro (meu em termos, pois é compartilhado) são todas por conta dele. Instalar, configurar e mexer em qualquer aparelho elétrico ou eletrônico em casa é tarefa que ele abraça com o maior orgulho e satisfação. Vai fazer 12 anos em maio.
Jorlan também ultrapassará. Parece que todos os meninos têm essa fase. No meu tempo era bangue-bangue. Uma pena que demorei tanto mais tempo que eles para realizar essa maturidade.
[Composto por Luiz Alberto Mendes em 27/02/2007]
