Cabra cego

Desafiamos Arthur Veríssimo a encarar as trevas em um dia de cegueira

por Arthur Veríssimo em

Desafiamos Arthur a encarar as trevas. De olhos vendados, ele enfrentou de um bife de soja a uma montanha-russa para refletir sobre sua própria condição e para tentar entender o que é uma vida no breu

 

Há muito fui incumbido de ser a cobaia sênior nos experimentos xamânicos, sociais, antropológicos e sensitivos desta tripulação que é a Trip. Desta vez este precioso corpo humano passaria por uma experiência de completa mudança na estrutura, na anatomia e no comportamento: viveria um dia como deficiente visual, totalmente vendado. Estabelecemos uma rotina estilo mix em São Paulo: começaríamos o dia com uma prática de asthanga yoga, para depois desbundar pelo Playcenter, dar um rolê na avenida Paulista, almoçar num buffet vegetariano e, por fim, passear pelo MIS (Museu da Imagem e do Som).

Quando os emissários da Trip surgiram em casa pela manhã, conheci a figura vital desse dia, o estagiário Hivanildo Lopes, da equipe de vídeo da editora. Ele foi imediatamente promovido a meu guia vidente – como são chamadas as pessoas que conduzem deficientes visuais. Deixei de lado minhas grossas lentes de miopia e fui presenteado com uns óculos de natação completamente lacrados com fita isolante. Meu mundo escurece e mergulho na penumbra, perco referências e sinto desconforto. Hivanildo se manifesta e me leva para a sala. Meus sentidos encontram-se à flor da pele e mando ver na prática de ioga. Durante os movimentos, purifico com intensidade meus órgãos internos e externos. A impossibilidade de enxergar me impedia de desviar a atenção, deixando a prática ainda mais renovadora. Suo feito um beduíno. Ao final, no relaxamento, viajo pelas entranhas do meu corpo e dou um cochilo. Desperto em outra dimensão, completamente cego e doido por um banho. Tomo uma chuveirada, me enxugo e, com extrema paciência, coloco as roupas que havia previamente colocado sobre a cama, seguindo metodicamente as orientações que havia gravado em minha memória.

Saio ancorado no braço esquerdo do infalível Hivanildo. Seguindo orientação prévia da Fundação Dorina Nowill (de apoio a deficientes visuais), seguro na altura de seu cotovelo e deixo o braço flexionado a 90 graus. A posição permite ao portador de deficiência interpretar informações verbais e táteis do corpo do guia vidente. Nos primeiros passos percebi que caminhava no estilo Stevie Wonder, cabeça inclinada para o alto. Em poucos minutos cortávamos a cidade em uma van rumo ao Playcenter. Ao chegar, sou conduzido por uma funcionária até uma extremidade do parque onde se encontra a montanha-russa. Escuto e sinto o barulho ensurdecedor das engrenagens e do motor do brinquedo. Vejo com os ouvidos e ouço com a pele. Instalado no assento da montanha-russa, sinto um tranco fantasmagórico e uma repuxada que chacoalha minhas vísceras. Tudo vibra ao meu redor, internamente meu corpo é brasa incandescente. O carrinho sai em disparada. Na primeira subida respiro fundo e reflito sobre a roubada de estar lacrado e preso ao assento sem poder ver nadinha. Mergulho no abismo e caio em um precipício sem cores ou luzes. Loopings, curvas, quedas, subidas e finalmente a velocidade diminuiu. Fiquei travadinho no meio das engrenagens onde me colocaram. Não conseguia sintonizar o que havia se passado. Então escuto uma voz maliciosa: “Você aguenta mais uma?”. Era Kiko, o fotógrafo. Fazer o quê? Ossos do ofício. O repuxo inicial e a subida íngreme já me eram familiares, estava mais seguro. Foi vapt-vupt, mas ao final tive que ser arrancado, pois estava grudado no assento como ventosa de polvo. Sentia um baita mal-estar, minha mente e meus órgãos internos continuavam a dar voltas. Solicitei com muita humildade para me deitar o mais rápido possível. Estava prestes a ter um treco. Minha única solução era respirar, respirar e respirar para recuperar o equilíbrio perdido. Mesmo com uma náusea cabulosa, fazia uma revisão e percorria corredores escondidos e passagens secretas da minha psique. Ufa.

Reestruturado, partimos para a avenida Paulista, onde iria percorrer parte do piso tátil que auxilia deficientes visuais por 2,5 quilômetros de calçadas. Caminho firme e seguro com Hivanildo, na região do parque Trianon e do Masp. Sinto com intensidade o cheiro de cigarro, gasolina, o perfume e o bodum das pessoas. Dou uma mínima vacilada e já tomo um esbarrão. Reengato com firmeza em Hivanildo. Pergunto como ele está vestido. “Tênis, camiseta e bermuda saruel.” Como uma machadada, sou invadido por uma lembrança cortante de ter conhecido em uma viagem aos confins da Índia uma figura incrível de nome Saru Well. Instantaneamente batizo Hivanildo de Saru Well e ele adora. Em seguida, sou deslocado para perto de uma pessoa pregando o fim do mundo e garantindo que Vênus vai explodir. Pergunto de onde ele tira tanta certeza sobre o final dos tempos. Ele diz que o cataclismo irá ocorrer dia 20 de dezembro próximo por aqui e no Japão no dia seguinte, tudo supostamente baseado nos maias e na Bíblia. Começo a ter náuseas, deixo o profeta apocalíptico falando sozinho e sigo em frente.

É hora do almoço. Sou deslocado para dentro do veículo, e abrimos caminho pela cidade. Como por encanto, sou retirado do carro e caminho um quarteirão até o restaurante. Meus sentidos estão aguçados. Sinto o odor do feijão, da pimenta e da carne de soja na porta de entrada. Uma funcionária me ajuda a compor o prato, que devoro com avidez e prazer. Satisfeito, seguimos para a última tarefa: percorrer as instalações do MIS.

No interior do museu sou informado sobre as exposições que acontecem no local, como a do desenhista polaco Piotr Kunc. Impossibilitado de fazer qualquer avaliação visual, deixo as reflexões invadirem minha mente. Compreendo que a maioria das pessoas vive em uma cegueira absoluta, em seus estreitos mundinhos, comandadas pelo olhar de outros. Pessoas cegas pelo ódio, a cobiça, a inveja, o amor, a fé, o dinheiro, o poder e a mentira. O que constato é que posso ver sem olhar: a imaginação transfigura o mundo. Ao final, tiro o aparato dos meus olhos e agradeço profundamente a Saru Well por me ajudar a enxergar aquilo que não conhecia das entranhas do meu ser.

Agradecimentos: Playcenter www.playcenter.com.br, MIS www.mis-sp.org.br, Restaurante Cachoeira Tropical www.cachoeiratropical.com.br, Laramara - Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual www.laramara.org.br

 

Crédito: Kiko Ferreira
Crédito: Kiko Ferreira
Crédito: Kiko Ferreira
Crédito: Kiko Ferreira
Crédito: Kiko Ferreira
Arquivado em: Trip / Comportamento