Na quinta-feira passada, 19, fui convidado para assistir a um desfile de moda no São Paulo Fashion Week, no Parque do Ibirapuera. Quando estive na cadeia, jamais imaginei que pudesse presenciar um evento dessa natureza. Sempre achei o fim da linha. Inutilização total do tempo. Mas é obvio que temos que adotar a visão que esteja mais de acordo com os fatos. Quando a gente assume que quer ser alguma coisa, é preciso vivenciar essa coisa durante as 24 horas do dia. Como quero ser escritor, então vou tentando ser o tempo todo. Para quem escreve, toda e qualquer tipo de manifestação humana torna-se matéria de estudo, de conhecimento e de reflexão. Nada mais é gratuito. A gente quer entender para poder escrever. Então, esta foi a minha motivação ao aceitar tal convite.
A primeira coisa que notei é que estávamos numa ilha, um mundo à parte, cercado de gringos por todos os lados. Além dos estrangeiros, também havia a burguesia e, é claro, uma horda de repórteres e fotógrafos em busca das celebridades. E, para manter as coisas daquele tamanho, homens enormes vestidos de preto. Como uma onda na orla da praia, eles pareciam – com certo ar de satisfação – comprimir o que lhes aparecesse na frente para dentro dos enormes salões onde as coisas aconteciam. Sozinho na fila de entrada para o desfile da Rosa Chá, tentei entabular um diálogo com uma jovem à minha frente. Improvisei assunto. Ela não respondia. Vexado, recolhi meu orgulho e não falei mais nada. Depois, quando a vi sentada e conversando com outras pessoas, a ficha caiu: ela era estrangeira. Com meu ego recomposto, passei a observar mais acuradamente. Homossexuais, transexuais, heterossexuais… Toda a sorte da fauna humana estava ali representada. Não havia fronteiras. As mulheres, umas mais lindas do que as outras. Tantas, mais tantas, que sequer dava tesão de olhar, assim como ocorre na areia da praia diante de tanta abundância. Eu, que me alimento de estranhas circunstâncias, fiquei abobalhado diante de tanta beleza. Vestido de amarelo-e-verde, o DJ Zé Pedro agitava o povo de fora com músicas perfeitas para o momento. Sons de bateria de escola de samba invadiam meus ouvidos.
Quando começou o desfile, abri os olhos como quem abre uma nova e desconhecida janela. À minha frente, enormes e esguias adolescentes de cera com pequenas bundas e olhos verdes ou azuis cobertas com biquínis reduzidíssimos. Algumas tinham as coxas da grossura de um braço. Ossos e peles alvas, parecendo bonecas de louça de tão frágeis. Traziam um ar de noite gélida e cimento frio. Lindas, absolutamente lindas de rosto. Porém de corpos magérrimos, distantes dos padrões tupiniquins. A mulher brasileira não cabe naquelas tirinhas de tecido em cores esmaecidas. A mais bela, ao meu entender nacional, foi uma mulata-mestiça-oriental (viva a genética!) – mas igualmente magrela. Todos os cabelos eram lisos e invariavelmente compridos. Os biquínis e vestidos curtos, provavelmente inspirados em peças de lingeries, mesclando com as camisetas de futebol estilizadas, impressionavam. A mim pareceu que tudo aquilo tinha a ver com a Copa do Mundo a ser disputada na Alemanha. As cores suaves davam um tom de leveza à leitura da grife.
Por último veio Isabeli Fontana. Formosíssima mas igualmente magra, esguia. O povo a aplaudiu de pé, nem sei por que, já que todas ali pareciam absolutamente idênticas. O desfile não durou mais do que alguns minutos. Quando pensei que iria começar de verdade, havia acabado. E eu nem tive tempo de apreciar direito as elegantes garotas de andar saltitante. “Será que elas comem?”, pensei. Decerto muito pouco. Ao final, todas se posicionaram à nossa frente, gloriosas. Em seguida passou o estilista Amir Slama, sorrindo, feliz da vida. Provavelmente o desfile fora um sucesso. Pena eu não soubesse apreciar tudo aquilo. Não possuo sensibilidade ou cultura para esse tipo de coisa, lamentavelmente. Mas pude perceber, a maioria prosseguiria comprando; outros o seguiriam copiando e ele, pelo ar triunfal, seguiria abrindo caminhos.
