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Berra que eu te escuto

Por Douglas Portari

Há pessoas por aí interessadas em transformar você em melodia. Pete Townshend é uma delas. Compositor, escritor, dramaturgo ou apenas guitarrista e força criativa (e destrutiva) da banda The Who, o músico inglês que completa 62 anos este mês lançou no dia 25 de abril o Method, “um projeto há muito esperado, um site que gera composições exclusivas para as pessoas que o acessam”. Assim ele resume o que ele e o matemático, programador e compositor Lawrence Ball, 55 anos, criaram. Um site em que as pessoas “posam” para o computador, como fariam para um pintor. O software desenvolvido por Ball cria melodias únicas com base em dados pessoais dos usuários, ou seja, uma música que “é” você.

O caráter elíptico das composições, como mantras eletrônicos, se deve à admiração de Townshend e Ball pelo experimentalismo do californiano Terry Riley e pelo francês Erik Satie (1866-1925). E a seme­lhança com a sonoridade do álbum Who’s Next, de 1971, não é acaso. O Method não é filhote apenas dos sintetizadores, mas do próprio enredo do disco que deveria ter sido a segunda ópera-rock do Who. O álbum, uma ópera-rock abandonada, se chamaria Lifehouse: uma trama futu­rista sobre uma sociedade em que grupos globais determinam, entre outras coisas, o que as pessoas devem ouvir. Rebeldes criam, então, suas próprias músicas. Sua arma, o Method.

Hoje, com o desenvolvimento do site, Townshend vê se tornar rea­lidade parte de sua ficção. Não apenas verter sentimentos em canções, mas traduzir pessoas em músicas. Além disso, Pete finaliza a primeira parte de uma autobiografia que deve sair em 2008 e cujos trechos podem ser lidos em seu blog.
Com o fim da turnê do Who pelos Estados Unidos, mês passado, onde divulgava o álbum Endless Wire, de 2006, ele concedeu uma entrevista exclusiva por e-mail. É o único jeito de conversar com Pete. Depois de 40 anos de amplificadores no talo, o primeiro destrui­dor de guitarras está praticamente surdo.

Um software que cria música personalizada a partir de dados de uma pessoa é uma revolução ou as pessoas terão apenas algo como “eu numa versão ringtone”?
Não, tem uma certa seme­lhança, mas é mais complexo que um ringtone. Cada obra do Method pode ter até 15 minutos e se tornar quase como uma música de meditação. No site de testes a maioria das pessoas ficou bastante contente com suas músicas, embora eu não me importe com isso. O importante é o “retrato” ser tão autêntico quanto possível.

Alguns críticos disseram que não há nada novo em Endless Wire, que a maioria das canções poderia estar em um disco do Who dos anos 70. O que você pensa disso?
Eu queria conectar esse álbum ao último grande disco do Who, que foi Who Are You [1978]. Mas eu acho que há muita coisa nova no disco. Críticos deve­riam ouvi-lo mais de uma vez, ele é um álbum lento para pegar de jeito.

Álbuns conceituais e óperas-rock são boas ferramentas para passar a mensagem?
Eu não sei. Tudo o que eu sei é que sinto prazer em fazê-los.

Uma canção de três minutos não é suficiente para contar uma história?
Sim, claro que é. Mas não é grande o suficiente para mais de uma ou duas “vozes”. Eu gosto de reunir mais personagens e mais movimentação.

 

Em 2001, na primeira vez em que o entrevistei, você disse que o Who estava mais para história do que para uma espécie de projeto paralelo. E hoje?
O Who ainda é, e muito, uma celebração da história. Embora desde a morte de John Entwistle [1944-2002, baixista, morto por overdose de cocaína] nós tenhamos sido liberados para fazer coisas novas. Eu sinto que posso colocar algumas de minhas energias criativas nisso que chamamos The Who, mas em alguns aspectos parece um pouco com um projeto solo com o Roger contribuindo. Claro, isso só se aplica ao disco – na estrada nós mesclamos passado e presente.

Os sul-americanos ainda podem sonhar com shows do Who?
Isso sempre foi um problema pra mim: acho que vendemos menos ingressos do que os empresários gostariam, e o grande aparato de vídeo com o qual excursionamos é muito caro. Além disso é ruim ir à América do Sul e entrar em contato com um público que, a partir daí, pode ficar descontente se nós não formos capazes de continuar voltando. Nós estamos no fim das nossas carreiras, não no começo.

Quase quatro anos após ter sido advertido pela polícia, a ferida cicatrizou? [Townshend, que anos antes havia admitido ter sofrido abusos na infância, utilizou seu cartão de crédito para acessar, em 1999, um site de pedofilia. Em uma operação internacional que envolvia a Scotland Yard, ele foi detido em 2003. Alegou que fazia pesquisa para um livro contra a pedofilia. Após quatro meses de investigação, a polícia afirmou não ter encontrado material que o incriminasse e apenas o advertiu]
Eu fui bastante arrogante em 1998-1999 tentando criar provas que constrangessem as companhias de cartões de crédito, os grandes provedores de Internet, como Yahoo e Excite, e os produtores de pornografia pesada. Estourou na minha cara. Pornografia infantil na Internet me enfurecia. Eu perdi a perspectiva da situação. Eu fico melhor fora da batalha, trabalhando em silêncio, nos bastidores, para ajudar os sobreviventes.

O que você considera ser seu maior fracasso?
Meu casamento [com Karen Astley, de 1968 a 1994, com quem teve três filhos]. Eu tenho sorte de ter a Rachel, claro, e não gostaria de voltar atrás agora, mas eu sempre quis ser um dos primeiros artistas roqueiros a provar que nós poderíamos ser rebeldes, durões, inovadores e leais, tudo ao mesmo tempo.

E sua maior realização?
Quadrophenia [a segunda ópera-rock do Who, de 1973]. Não é perfeito, mas é provavelmente o mais próximo da perfeição que eu poderia chegar nesse estilo escolhido por mim de rock teatral e musical.

Em uma espécie de trecho de suas memórias, você poderia dizer quem é Pete Townshend?
Eu sou uma criança da guerra, um boomer [filho da explosão demográfica ocorrida no pós-guerra conhecida como “baby boom”]. Eu sou um de muitos. Minha infância foi cheia de extremos, de escuridão e luz. Eu acho que muitos dos nossos fãs tiveram uma experiência parecida. É por isso que sou bem-sucedido, não porque sou esperto, mas porque eu sou igual às pessoas na platéia. 

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