Ícone do site Trip | Conteúdo que transforma

Beat a rolê

O mineiro Alexei Michailowsky, 31 anos, passou 15 dias numa espécie de colônia de férias para DJs em Roma, a Red Bull Music Academy. Lá, tinha à disposição dezenas de brinquedinhos eletrônicos. Quando cansava, comia pizza al taglio, se empanturrava nas tratorias e explorava recônditos da capital italiana

por Alexei Michailowsky

?Cheguei a Roma na manhã de sábado, 23 de outubro, e me instalei num hotel no Trastevere, uma região maravilhosa, que traz à mente imagens de cinema: ruazinhas estreitas, casario charmoso, tratorias, igrejas e italianos típicos circulando com suas lambretas. A colônia de férias patrocinada pela Red Bull funcionava num centro cultural alternativo instalado num anexo do Mosteiro de Santo Ambrósio ? a cerca de 1,5 quilômetro do Coliseu. Para nos receber, os organizadores cons-truíram oito estúdios. Além disso, o lugar tinha salas de palestra e um lounge no andar térreo, onde todos o dias depois das 18h a bebida era servida na faixa.

Éramos 30 pessoas de várias nacionalidades, todos figuras. Tinha o Rustam, do Cazaquistão, ex-república soviética castigada pelos tempos bolcheviques, que chegou numa felicidade enorme, já que ia poder comprar CDs, artigo de luxo em seu país. Drew McIntyre, ou DJ Panzah Zandazh, americano do interior do estado de Nova York, vegetariano que se orgulha de nunca ter bebido álcool na vida e que chorou quando foi anunciada a reeleição de Bush. Tracy Ginsberg, a Miss Tres, australiana radicada na Costa Brava espanhola, figurinha mais pitoresca do pedaço: 35 anos, rosto que lembra vagamente a Rita Lee, artista plástica e musicista fiel ao espírito punk ?do it yourself?. Dava pra dividir os participantes entre os ?ricos? ? europeus e norte-americanos que vinham equipadíssimos, com seus computadores Apple Powerbook G4 com os quais ficavam fazendo música e acessando a internet via AirPort o tempo todo ? e nós, os ?pobres? da América do Sul e do leste europeu, que ainda chegaremos lá.



Baterista dos Beatles


Todo dia, às 11h30, as vans passavam nos hotéis para levar a gente até o mosteiro. A partir do terceiro dia adotei um procedimento dife-rente: acordava mais cedo para passear pela cidade e conhecer lugares lindos, mas pouco divulgados, como o Gianicolo, colina da qual se tem uma fantástica vista panorâmica do centro histórico. Depois pegava o bonde e ainda chegava no mosteiro antes do resto da galera. As lectures, como eles chamavam as palestras, começavam por volta do meio-dia. Nelas, conheci Bernard ?Pretty? Purdie, lendário baterista que tocou com Beatles, Stevie Wonder, Aretha Franklin e me revelou um segredo bombástico: Ringo Starr nunca tocou nos discos do quarteto. Quatro bateristas se revezavam no estúdio ? e Purdie era um deles. Também bati bola com David Matthews (arranjador que traba-lhou com James Brown no fim dos anos 60) e com Arto Lindsay (que para brasileiros dispensa apresentações).
Às 15h30, tínhamos uma pausa para almoçar. Depois da segunda lecture do dia, nos reuníamos em grupos para trabalhar em estúdio, sob a coordenação de quatro produtores. Nesses momentos, com excelentes equipamentos à disposição, me sentia no paraíso. Encerrada a jornada na academia, sempre às 22h, os participantes tinham a oportunidade de tocar nos clubes da cidade. Eu toquei num sábado à noite, mas fui aos clubes apenas em outras duas oportunidades: numa jam que Purdie comandou em um clube com a participação do Cut Chemist ? um dos organizadores da ?colônia de férias? e DJ do grupo de hip-hop americano Jurassic 5 ?, e na véspera da viagem de volta, para confraternizar com o resto do pessoal. O problema das baladas roma-nas é que, apesar da música bem legal, os clubes são um fumódromo.
Depois de 15 dias, voltei cheio de boas memórias. Trouxe três mú-sicas novas e cheguei à conclusão de que a Red Bull Academy é uma espécie de comunidade hippie cyber-moderna. Fica apenas uma res-salva: o evento é divulgado como se fosse apenas para DJs, o que não é verdade. Se fosse, eu nunca teria sido escolhido, pois sou músico bem old school e nunca discotequei na vida. Lá em Roma, várias vezes ao dia, eu era obrigado a repetir: não sou DJ, não sou DJ, não sou DJ!?


 


Vá lá Escute as produções feitas por alexei no rbma no site www.alexeiweb.com.br

 
Sair da versão mobile