Ícone do site Trip | Conteúdo que transforma

Ave nossa!

Por Ronaldo Bressane | fotos Araquém Alcântara

Um urubu pousou na nossa sorte. No caso, um casal de urubus. No caso, a sorte da Trip – é que no telhado da editora aninhou-se, há alguns meses, o casal Urubundo e Urubook. Urubundo passa os dias deitadão, de butuca nas reuniões que abundam no terceiro andar (diretores já cogitaram se tratar de um enviado da concorrência). Sua garota, a Urubook, ativa e amostrada, plana ornamental por sobre nossas cabeças desfilando seus graciosos dotes de girl next door, quem sabe fantasiando se transformar na funcionária do mês que ornaria estas páginas. Mais sorte na próxima, penosa…

Urubundo e Urubook são parte de uma população enquadrada por J. R. Duran na edição Habitação (160). Encafifado pela quantidade de aves pretas sobre São Paulo, o fotógrafo deu o negativo do filme: a cidade está podre. Produzimos tanto lixo que alimentamos a multiplicação dos Cathartidae. A família agrega do urubu-decabeça-preta ao condor andino, e entre seus parentes próximos estão o abutre e a cegonha. “Mas é impossível saber se a população de urubus-pretos que voam pela cidade está aumentando”, afirma Elizabeth Hofling, zoóloga da USP. “Eles voam até 100 quilômetros em um dia atrás de comida; nem sempre se fixam no mesmo lugar.” Voam em bandos, para achar o rango de um jeito mais fácil; porém os casais se unem para
sempre – como os fiéis Urubundo e Urubook.

Verdade que não fazem força para agradar. São necrófagos – comem alimentos ou animais em decomposição. Às vezes, até em recém-composição, como testemunhou este repórter no zôo de São Paulo. Ao levar meu filho Lorenzo para conhecer o leão, observei uma cena de obscura simbologia. O velho felino, meio de saco cheio dos visitantes que lhe pediam estripulias mais dignas de filme da Disney que do insosso reality show que é seu cotidiano, deu as costas à platéia, levantou o rabo – e mandou bala. Dez urubus atentos caíram de bico na caca leonina. Horrorizado, o respeitável público foi levar seus amendoins à freguesia do elefantinho. Lorenzo e eu rimos: se aprende muito da natureza humana visitando o zoológico.


Morte aos urubus

Justamente por transformar merda em ouro as aves necrófagas eram veneradas entre antigas civilizações. Para os maias, o urubu-peru, rei do deserto de Sonora,“governava as preciosas tempestades da estação seca”, conforme o Dicionário dos símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant. Entre os bambaras africanos, o abutre (primo do urubu, mas da família Accipitridae) nomeava uma classe de iniciados. Durante os rituais, apresenta-se como uma criança que acaba de renascer – e, feito nenê, se arrasta pelo chão comendo de tudo, até seu próprio cocô. Os egípcios pintavam o abutre como a deusa-mãe Ísis, que absorve os
cadáveres para novamente dar a vida. Era ainda um dos pássaros consagrados a Apolo: os gregos acreditavam que seu vôo traduzia bons presságios. Hoje, os pilotos de asa-delta vêem boas novas no vôo dos urubus – são craques em descobrir as correntes térmicas quentes, que se elevam do solo ao céu. Planando de térmica em térmica, em círculos, passam até seis horas sem bater as asas, chegando a 6 mil metros de altura. E nem sempre quando sobrevoam um lugar há carniça embaixo. Às vezes buscam comida – de olfato ruim, sua visão é espantosa: vêem objetos de 30 centímetros a 3 mil metros. Ou simplesmente paqueram e brincam. Urubus não cantam (crocitam), mas quem vive do lixo tem que ter senso de humor. Por isso é outra inverdade chamar um bicho malemolente como o Urubundo de perigoso. Ao contrário do que canta o genial zé-doidim Fernando Catatau (“Os urubus só pensam em te comer”), urubus jamais atacam seres vivos.

A oposição, entretanto, é implacável e há quem defenda a pena de morte para as aves pretas (que saem brancas dos ovos). Há uns dez anos, Gal Costa encampou um abaixo-assinado propondo o genocídio urubulesco. O motivo: um azarado que se enfiou na turbina do avião onde estava a cantora, fazendo o comandante apelar a um pouso de emergência. Hoje, os 10 mil emplumados vizinhos do Galeão (habitam o lixão do Gramacho) lá continuam. Os aviões que mudem suas rotas: os urubus estão aqui há 20 milhões de anos. E tão cedo não serão exterminados de nossa cultura. Apelidam todo flamenguista – culpa do cartunista rubronegro Henfil, pai do personagem Urubu. As penas do bicho fazem as flechas mais rápidas, segundo os índios xavantes. A tribo dos Urubu-Kaapor tem uma apurada arte plumária. E, se você pretende parar de beber, mate um urubu, tire suas tripas, torre, transforme em pó e coloque numa garrafa de cachaça. “Depois, coloca-se a garrafa à vista do bebedor. Em poucos dias, o beberrão contumaz enjoa da cachaça”, explica o médico José de Magalhães em seu Medicina folclórica.

Só pode ser o ácido clorídrico. Mesmo vivendo na podridão, a ave não transmite doenças. “A diferença entre o sistema digestivo deles e o de outras aves é a maior quantidade de ácido clorídrico no estômago”, afirma o biólogo Luiz Francisco Sanfilippo, do zôo paulistano. Por serem imunes a males como o botulismo, o sistema imunológico dos urubus pode desvendar o combate a vírus como o da Aids. Alguns desses estudos são divulgados pela Turkey Vulture Society, uma apaixonada ONG norte-americana (vulturesociety.homestead.com).

Se até agora não resolveu chamar de seu louro um urubu, um bom argumentador é Tom Jobim. Falando do gereba (urubu-peru), na contracapa de Urubu o maestro escreveu: “Provador de venenos, sua prioridade é o risco. O que ele não toca é intocável. Esse sabe o que há de vir. Teu canto imita o vento. Hisss… Urubu Achador. Que sabes do alto o que se esconde no chão da mata virgem e dos muitos perfumes que sobem do mundo. Eterno vigia de um tempo imperecível. Guardião de dois absurdos. A vida era por um momento. Não era dada. Era emprestada. Tudo é testamento”.

O testamento desses garis ecológicos responde pela digestão de até 95% do material em decomposição presente na natureza. Com isso, discordo do colega Duran: se os urubus congestionam o tráfego aéreo de São Paulo, não quer dizer que a cidade está apodrecendo. Está é mais viva do que nunca. Tão viva quanto o branquinho filho de Urubundo e Urubook, aninhado no terceiro andar da Trip. Bons ventos o levem, urubaby.

Sair da versão mobile