Movido pela necessidade de protestar, fui à passeata contra a corrupção na Avenida Paulista.
Conheço o ser humano. Convivi com aqueles considerados piores, durante toda minha vida. Conheço-o em sua covardia, em seu medo visceral e em de sua miserabilidade mais profunda. Se o poder corrompe, a falta de poder corrompe mais ainda. A falta de poder sobre si mesmo nas prisões retorna o homem às suas idades mais primitivas. Torna-o alguém capaz de tudo para sobreviver.
Mesmo por conhecer percebo que a letargia cidadã é o pior dos males sociais. Tolerância e flexibilidade, características brasileiras, têm seus méritos. Mas tem sido o maior entrave para que nossa nação dê passos adiante.
O brasileiro comum acredita que a corrupção campeia em todos os postos administrativos do país. Onde mexer, vai encontrar esquema armado. E não adianta fazer nada porque sempre foi assim e sempre será. É sintomático. Quase condição brasileira ser vítima da corrupção dos políticos e gestores do bem público. Exatamente por isso, deixei de lado meus compromissos e, forçando a vontade, fui à manifestação. Queria ser coerente com minhas afirmações.
Os jornais mentem ao computarem apenas 500 pessoas. Havia muito mais que o dobro disso. Quase o mesmo tanto que na Marcha pela Liberdade. Claro, muitos jovens excitadíssimos pela primeira participação em um evento público. Mas a maioria gente séria e indignada com toda patifaria reinante, exigindo ética, respeito pelo que é de todos.
“Ei, brasileiro, estão roubando o seu dinheiro”, era a palavra de ordem. Depois: “eu sou brasileiro, com muito orgulho…” Aquilo foi me pegando, minha respiração acelerou, senti o corpo esquentar e entrei no meio quando a passeata saiu do MASP. Segui com o peito inflamado gritando as palavras de ordem junto com todos, cheio de verdade. De repente acreditei que era possível mudar. Algo me envolveu de esperança. Fui seguindo levado no ar pela emoção de estar ali, com aquela gente toda que pensava e protestava como eu.
Na hora me iludi pensando que aquela gente fosse diferente das outras que estão no poder. Eu mesmo me senti melhor naquele momento de empolgação.
Dispersamos, voltei para casa a meditar. Na verdade somos todos iguais. É difícil de acreditar, mas parte daqueles que estão no poder hoje se locupletando, têm passado de intensas lutas políticas e sociais. Apanharam da polícia, engoliram gás lacrimogêneo e brigaram demais. Alguns foram torturados, presos e sofreram muito por mudanças em nosso país.
Pratico a política do menos pior. Ainda penso que esses que estão agora no poder são menos piores que aqueles que lá estavam. E os que virão serão menos piores que os que agora estão, e assim por diante. Minhas esperanças são reais. Tudo é paulatino, sedimentar e metódico. Nada, absolutamente nada de real acontece de repente e sem dor. A vida exige tudo de nós, até a última gota.
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Luiz Mendes
08/09/2011.
