Cinco horas da manhã. Acordei com o barulho. Um
turbilhão de vozes nervosas ecoavam como rugidos abafados. Levantei da
cama e fui ver o que estava acontecendo. Caminhei pelo quintal rumo ao
portão ainda cheio de sono. Um vento moleque, com ares de molhado,
envolvia o dia em piques de ausência.
Ao chegar
ao portão de barras de ferro, deparei-me com homens mascarados e
armados até os dentes. Na calçada, seguranças uniformizados deitados de
bruços e mãos na nuca. Muitas vezes sobrevivi a mim mesmo,
viabilizando-me por um fio. No mínimo, devia voltar e aguardar os
acontecimentos. O risco era enorme, véspera de sofrimento, inauguração
de alguma dor. Mas não conseguia sair dali. O carro de cigarros estava
parado logo à frente, na porta do bar, ao lado de minha casa. O veículo
de escolta estava a dois metros de mim. Em pé, a distância de dois
braços, um dos assaltantes com a indefectível calibre 12, embalada e
firmemente apontada para os guardas no chão.
O
homem mascarado somente me olhou. Decerto, me conhecia. Sabia que não
havia perigo. Difícil, se não impossível, explicar aos jovens que, há
décadas, escapei daquelas malhas. É quase uma humilhação. Fico
diferente, menor aos olhos deles. Olham-me com ares de superioridade.
Julgam-se o inferno sobre pernas e eu, covarde, roedor de cordas. Sei,
no fundo invejam. Queriam estar a salvo dos riscos, vivendo tranqüilos,
como eu.
Uma perua Kombi fazia manobras. Fariam
o transbordo da mercadoria, imaginei. O céu derretia-se em azul
esfumaçado. O motorista e o ajudante, de joelhos, desesperavam-se em
explicar, diante das armas apontadas para suas cabeças. A porta do
veículo estava programada. Uma ordem foi dada pelo mascarado que
parecia estar no comando. O sujeito da espingarda trocou de posição.
Apontou a artilharia pesada para o segredo da porta. A explosão
ensurdeceu. Vi o jato de fogo sair do cano, a porta escancarou-se em
fumaça, como mágica.
Os ouvidos zumbiam, o cheiro
de pólvora queimava as narinas. Rapidamente transportaram os pacotes de
cigarros para a Kombi. Uma faixa errante do amarelo solar fustigou meus
olhos, ofuscando. A vizinha, assustada, veio ver o que acontecia. Com
empenho, impedi que se aproximasse do portão.
O
comandante da "operação" olhou, apontou sua arma e quis intimidar para
que eu me recolhesse. Sem saber por que, movido sei lá por qual
insanidade das muitas às quais tenho sobrevivido, me recusei. Não havia
um pingo de medo em mim. Sabia, mais que isso, sentia, não atiraria em
mim.
Voltou a atenção e a arma para as vítimas de
joelhos. O transbordo havia sido concluído. Antes que pudesse piscar,
todos estavam dentro dos carros e partiam, queimando pneus.
Automaticamente, sem pensar, fui ver se havia alguém ferido. Corri ao
bar do "seu" João, nosso vizinho, para saber se estava tudo bem.
O
motorista, em choque, falava do cano da espingarda que estivera em sua
cabeça. "Seu" João, com a calma que sempre o categorizou, procurava
acalmar e mandou seu filho buscar copo de água com açúcar. Estava tudo
bem; entre mortos e feridos, salvaram-se todos, como diz o velho adágio
popular.
Em casa é que fui sentir. A vidraça
opaca da realidade, de repente, ficou límpida. Uma ameaça criava vida
própria, me paralisando. O sol já se amolentava, denso, na janela. A
vida batia, com seu punho duro, na minha brincadeira de ser feliz.
Aquele clima pesado do assalto me abateu, comprimindo a alma, garganta
abaixo, para meu antigo esconderijo de grades. Amorteceram-se os
ruídos, concreto e escuridão formavam o pano de fundo. Protagonizei
prisão.
Encostado no tempo, revivi toda a luta
que venho travando para me reintegrar. Lembrei que até para atravessar
as ruas, sem ser atropelado, foi um aprendizado audacioso. Aos poucos
foi me voltando a respiração diante da certeza de que estava no caminho
certo. Estava perto e longe de tudo que sonhava.