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As cores do mundo

Então é assim.
Escreveu não leu, o pau comeu.
Tudo o que aprendi na vida foi lendo.
E o primeiro livro sério que li, ou o primeiro livro que li seriamente, foi O Vermelho e o Negro, de Stendhal. Digo o primeiro livro sério porque até o momento só tinha lido histórias em quadrinhos, histórias infanto-juvenis e coisas parecidas. Aí, um dia, tomei coragem e abri o livro de Stendhal. Devia ter 12 ou 13 anos e não sei por que decidi começar a olhar o mundo através daquele livro. Stendhal, descobri mais tarde, era o pseudônimo de Marie-Henri Beyle, nascido em 1783 em Grenoble, na França. Filho de um advogado, estudou com os jesuítas e lutou no exército de Napoleão. Depois foi, também, consul da França em Trieste.

O personagem principal do livro é Julien Sorel, um jovem caipira que decide subir na vida a qualquer preço. Stendhal mostra a sociedade da época através dos olhos do nosso herói que, na verdade, não é um herói. Que se acha muito esperto mas é apenas um romântico que acaba sendo uma peça menor em um jogo de xadrez manipulado por outros jogadores mais tarimbados. Julien é o filho de um marceneiro em uma cidade do interior. Vive enfiado entre livros e não é levado a sério pelo pai e pelo irmão, que têm um sentido mais prático e imediato da vida. Julien passa a ser o ajudante do pároco da aldeia que, por sua vez, o recomenda como tutor dos filhos do prefeito do lugar. Depois de um tempo começa a galinhar a mulher dele, mas o caso é descoberto por uma empregada ciumenta da casa. Julien é banido da cidade e entra em um seminário. A vida é monótona mas o diretor do seminário gosta dele e o recomenda para ser secretário de um diplomata. O diplomata se muda para Paris e aí Julien começa mais uma vez a enfiar o pé na jaca. Ele tenta se misturar com a alta sociedade parisiense ao mesmo tempo que sente uma certa aversão à futilidade daqueles por quem se atrai. Entretanto a filha do diplomata seduz Julien. Ela fica grávida, e o diplomata consente em ter Julien como seu genro dando-lhe, além do mais, uma boa soma de dinheiro e um cargo no exército. Acontece que a mulher do prefeito, aquela do começo da história, manda uma carta para o diplomata dizendo que Julien é apenas um arrivista. O casamento não acontece. Julien vai, então, ao encontro de sua ex-amante e, durante a missa, lhe dá dois tiros. A confusão começa de verdade.

A história que Stendhal conta em O Vermelho e o Negro é quase um folhetim, uma novela das nove. Quase, mas não é. É um dos grandes clássicos da literatura. Stendhal narrava tudo de um ponto de vista, poderíamos dizer, psicológico. Mostra a vida como ela é.

Lembro-me, perfeitamente, que na hora em que fechei as últimas páginas do livro tive a sensação de perceber como era o mundo, de verdade. A perfeita medida do que me esperava fora da casa dos meus pais, dos meus familiares, dos amigos e da escola.

*J. R. Duran, 53, ganha a vida capturando cores e, cada vez mais, palavras. Seu e-mail é: studio@jrduran.com.br

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