por Millos Kaiser

Trip vai ao SBT e tenta quebrar o rígido sistema de controle do programa Silvio Santos

Acordar 3h30 da manhã de uma segunda-feira para se vestir de mulher definitivamente não estava nos nossos planos quando decidimos ser jornalistas alguns anos atrás. Mas este ofício prega peças engraçadas na gente... e quando você se dá conta, está de meia-calça, gola rolê, vestido, peruca, sutiãs recheados de pano de chão embolado e um nome diferente no RG. Em uma sala com 200 mulheres, não havia como esconder-nos dos olhares, entre curiosos e repressores, desse exército de tietes do eterno Patrão da TV brasileira. Nós, invasores, tentávamos driblar o desconforto da transformação em Bruna e Flávia, enquanto elas olhavam perplexas e incrédulas aos dois marmanjos vestidos como senhoras.

A transformação tinha uma razão nobre. Somente como Flávia Fracarolli e Bruna Torturra teríamos alguma chance de burlar um dos sistemas de controle mais rígidos que existem: o do Programa Sílvio Santos. Pois todos sabem que o Patrão é conhecido por diversas coisas – o jeito único de falar, o tino empresarial, o carisma, os aviõezinhos de dinheiro, a peruca acaju – mas também por permitir apenas mulheres em seus auditórios. É assim há mais de 50 anos. E foi por pouco, muito pouco, que Trip não quebrou este que é o maior tabu da televisão brasileira. E enquanto Silvio Santos vinha aí, nossa reportagem tentava passar incólume pelo julgamento de centenas de adolescentes presentes na sala de espera do Estúdio 3, quartel-general televisivo do "Homem do Baú".

"O sutiã apertava, a peruca coçava, as pernas apertadas na lycra suavam. Alguém vinha puxar papo e só conseguíamos responder com um sorriso amarelo e murmúrios ininteligíveis"

Primeiro tentamos nos infiltrar em alguma caravana, imaginando que chamaríamos menos atenção se chegássemos camuflados no meio de um grupo. Só não contávamos com a rudeza de Anadethy Javier, coordenadora das excursões (e, segundo seu cartão de visitas, também atriz) para esse e outros programas televisivos. Quando nossa produtora ligou perguntando se poderíamos participar da próxima visita, ela respondeu: “Meu bem, você tem que esperar eu te ligar. Pode ser amanhã, semana que vem ou, quem sabe, no próximo ano”. Desesperançados pela patrona da máfia das caravanas, recorremos ao próprio SBT, que para a nossa surpresa disse que nossos nomes estariam na lista de convidados.

No dia seguinte, com o céu ainda escuro, chegamos na Cinema Make Up, empresa de Pietro Schlager, especialista na arte da caracterização. Após um papo, decidimos que Flávia (Millos) teria um visual meio “professora de sociologia da USP”: uma mulher entre 30 e 40 anos, que não pinta o cabelo e não tem medo de ousar na vestimenta – no caso, uma segunda pele-preta para esconder o gogó e os pelos do braço, um vestido florido com todas as cores da primavera, botas de couro e esmalte “Glamour Pink”. Já Bruna (Luiz Filipe) seria uma psicóloga reprimida, também balzaquiana, trajando pantalonas, segunda-pele branca, óculos de vovó, casaco de tricô e unhas pintadas de “Vermelho Deixa Beijar”. Após duas horas de maquiagem, na melhor (ou pior) das hipóteses, não passávamos de uma versão travesti de nós mesmos. Mas era tarde demais para desistir. Estúdios do Anhangüera, aí vamos nós. 

O segurança abriu a chancela sem perguntar nada. Ainda no estacionamento, posamos para uma foto com o símbolo da emissora atrás, quando recebemos o primeiro de vários outros olhares de “que porra é essa?” do dia. Na entrada, a recepcionista nem reparou em nossas carteiras de identidades toscamente falsificadas, talvez porque sequer tenha olhado para as nossas caras. Ela seria a única. Não houve quem não notasse nossa singela presença de 1,80m e pé nº 43. 

Chegando no estúdio 3, onde seriam rodados a TeleSena e o Programa Silvio Santos, somos informados pela produtora Batata – senhorinha batuta, de cabelo laranja arrepiado e piercings na cara – que as gravações começariam somente às 11h30, dali a três longas horas. Pânico. O leitor não faz ideia de como é estar numa mesma sala com um exército de meninas inclementes te olhando, apontando, cochichando. Éramos a atração principal do recinto, a ponto de integrantes da caravana da Moóca perguntarem para a nossa produtora se poderiam tirar uma foto com as suas “amigas estranhas”. “Claro”, ela respondeu, sem nos consultar. Diga “eu-estou-muito-incomodado-e-não-vejo-a-hora-de-sair-daqui”. Clic!

“O que terá acontecido com as tias do auditório do Sílvio?”, nós nos perguntávamos. No lugar delas, apenas menores-de-idade (pouco) vestidas com tops e saias do tamanho de um cinto, doidas para serem descobertas – exatamente tudo o que nós não queríamos. De repente, chocados com o figurino sumário dominante,  nos sentimos um pouco mais confortáveis em nossos disfarces. 

 “Impressionante como hoje só tem gente bonita aqui. Se não por fora, pelo menos por dentro”, ele emendou, rindo e mirando o olhar em nossa direção.

Mas a sensação logo passou. O sutiã apertava, a peruca coçava, as pernas apertadas na lycra suavam. Alguém vinha puxar papo e só conseguíamos responder com um sorriso amarelo e murmúrios ininteligíveis. De minuto em minuto, parecia que o peso da roupa de mulher ia mexendo com o nosso próprio preconceito, em um jogo de gato e rato que não acaba depois que você tira a peruca. Tudo que sempre escondemos vinha à tona: vaidade, vergonha, estereótipos de gênero... Parabéns aos travestis de todo o mundo. Nós invejamos a sua coragem.

“Bom dia, meninas”, nos saudou Roque, o fiel escudeiro de Silvio Santos. “Impressionante como hoje só tem gente bonita aqui. Se não por fora, pelo menos por dentro”, ele emendou, rindo e mirando o olhar em nossa direção. Pouco depois, sabe-se lá porquê, ele chamaria somente os dois repórteres na chincha para conversar: “De onde vocês são? O que vieram fazer aqui? Podem falar, estamos entre amigos”. Quando estávamos crentes que seríamos expulsos, que havíamos sido desmascarados, ele começou a desculpar-se, explicando que as gravações teriam de ser canceladas por conta de uma queda de energia. “Mas voltem amanhã, por favor”, pedia em tom de cavalheiro.

Como prêmio de consolação, sortearam R$ 1 mil e várias bolsas com uma estampa de oncinha e o logotipo do SBT. Para nosso azar, não havia brinde para meninos.

matérias relacionadas