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AS ARANHAS ASSASSINAS

Os pescadores aparentemente ficaram com toda a fama mas, quanto mais tenho a chance de me deslocar pelo mundo, mais forte é a impressão de que a necessidade de aumentar façanhas e terrores do homem diante das forças da natureza não é privilégio de qualquer categoria ou profissão.
Se depender da América Central, por exemplo, onde me encontro neste momento, motoristas de táxi, pilotos de avião, capitães de pequenas embarcações e surfistas apresentam todos os mesmos sintomas. Antes de mais nada, procuram saber sua origem e procedência. Depois, logo em seguida, perguntam há quanto tempo está no local onde vivem. Com estes dados disponíveis, encontram-se em condição de avaliar com razoável precisão, qual a sua capacidade de contestar ou mesmo duvidar de suas afirmações. Aí começam a disparar.
‘Nesta região acontecem furacões que arrancam casas do chão e fazem-nas voar como folhas secas no outono’.
O pobre interlocutor olha para os lados e tudo que vê é um gramado verde com vaquinhas pastando alegremente sob o sol quente, com a brisa do mar acariciando-lhes o lombo.
Assim, quase sempre estabelece-se uma relação de admiração e inveja do turista pelo bravo habitante local capaz de enfrentar tamanhas intempéries e sobreviver para conduzir seus táxis e transportar idiotas incapazes cuja grande habilidade é apertar botões de câmaras fotográficas.
‘Vocês deram azar. As ondas aqui chegam a 25 pés abrindo tubos do tamanho de um microônibus. Hoje não tem nada. Está uma piscina. Semana passada o mar parecia querer arrancar as bancadas de coral’. Desta forma, o surfista local procura se impor sobre o pobre forasteiro que saía orgulhoso da água depois de lidar por três horas com ondas que ele jurava terem mais de seis pés. Devidamente rebaixado à condição de merrequeiro, o alienígena recolhe-se à sua insignificância. Aparentemente, trata-se de uma espécie de mecanismo de vingança, uma forma de descontar o fato de que o local sente-se condenado a viver ilhado em seu pequeno paraíso e não poderá portanto permitir que um mero visitante instale-se por ali por quatro ou cinco dias e saia dominando o conhecimento dos hábitos e da própria natureza do local.
É claro que isto não acontecerá, mas o nativo quer ter a certeza de que o visitante sairá dali devidamente ciente de sua desimportância.
Se ele tiver, porém, a curiosidade de ir fundo na avaliação desta paranóia, não terá dificuldade para descobrir que nenhuma casa jamais foi arrancada de seus alicerces naquela região ou que as ondas em seus dias mais furiosos, com boa vontade chegavam aos 12 pés.
Só resta ao resignado viajante ouvir as histórias, fingir acreditar e, melhor ainda, mostrar-se admirado para que o nativo relaxe logo e passe com sua superioridade devidamente afirmada a conversar normalmente, ensinando o que sabe sobre sua área. Foi assim que fiz com o piloto de um barquinho que insistia em relatar a existência de uma aranha que se alimentava de 3 cavalos ao dia, engolindo-os inteiros de uma bocada só, sem sequer arrotar depois. Deu certo.

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