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Paulo Lima entrevista Raí


 


Paulo Lima: Ele conquistou pela Seleção Brasileira o título máximo: campeão da Copa do Mundo de 1994 nos EUA. Pelo Paris Saint-Germain, ele foi campeão duas vezes da Copa da França, duas vezes campeão da Copa da Liga Européia e campeão da Recopa. É sem dúvida o símbolo das maiores conquistas do São Paulo Futebol Clube, entre elas o bicampeonato da Taça Libertadores da América, que é um campeonato cabuloso, você sabe, né Arthur? Ninguém ganha, mas os caras foram lá e ganharam duas vezes e também o primeiro título mundial do São Paulo, conquistado contra o Milan, em 1992.


 


Arthur Veríssimo: Uma das melhores partidas já vistas!


 


PL: Ele bem que podia usufruir da sua pinta de galã de novela, mas depois de conquistar seu último título em 98 resolveu largar a vida de jogador de futebol para se dedicar as causas sociais. A gente está falando do Raí Souza Viera de Oliveira, o irmão caçula do Sócrates. Raí é o líder eterno dos são-paulinos e agora também está atuando como comentarista esportivo na TV Record.


Raí, a gente ficou torcendo, se descabelando com você na Copa e agora também como o cara que resolveu se dedicar a uma das coisas mais importantes que existem, principalmente em países como o nosso, que é educar e cuidar de pessoas que são menos privilegiadas. Então é duplamente uma honra te receber aqui. O Arthur está emocionado porque ele achou você um galã, tem mais essa.


 


AT: Não, não, não. Eu tenho minhas ressalvas porque o Raí, poxa, o que ele causou de problemas para a retaguarda santista… E, graças a Deus, a nossa felicidade foi a participação dele representando o Brasil, ganhando esses grandes títulos. Raí, por favor, seja bem-vindo.


Raí: Obrigado, um abraço a todos. Para mim também é um prazer estar aqui com vocês e vamos fazer esse bate-bola.


 


PL: A primeira coisa que eu queria te perguntar é você já parou de jogar futebol há algum tempo, mas estou vendo que você está mantendo a forma física. Outro dia vi na TV um jogador de quem sou fã e curti muito a forma e o espírito dele atuar que é o Branco. Ele deu uma engordada e você continua na forma física. O cara deixou de ser atleta, não tem obrigação nenhuma de ficar magro, mas é uma coisa que eu reparei, ele é mais ou menos contemporâneo seu, eu acho.


Raí: Sim, sim. Um ano mais velho, mas jogamos muito tempo juntos. Eu continuo me cuidando. Tem até uma história engraçada do Branco: fazia um tempo que eu não o via, liguei pra ele e falei: ?Pô Branco, estou fazendo minha despedida (era um jogo que fizemos lá em Paris, do Paris Saint-Germain contra uns amigos brasileiros e tal). E aí? Você está em forma??. Ele respondeu: ?Estou em forma, em forma de barril [risos] ?. E estava mesmo, achei que era brincadeira, mas ele engordou bastante. Não é fácil. Logo depois que você pára, você está meio estressado de 20 anos de exercícios diários, de manhã e à tarde. Quando você pára, quer dar uma descansada, o teu corpo quer descansar. Mas se você não toma cuidado, nesse ritmo que você está acostumado, parar de uma vez com certeza pode fazer mal para a saúde. Depois, se você acabar não voltando a fazer exercício normalmente, isso acontece mesmo. O Sócrates que era o mais magro da família hoje em dia já ganhou uns quilinhos.


 


PL: Uma das coisas interessantes do Sócrates é que ele sempre teve uma atitude muito legal de emitir opinião. O Sócrates é meio símbolo disso – sempre emitiu opinião e muitas vezes opiniões bastante polêmicas. Hoje ele é colunista da revista Carta Capital onde volta e meia emite opiniões fortes e tal. Esses dias eu vi uma entrevista dele sobre os seus 50 anos e disse que queria estudar não sei o quê. Você, que é irmão dele, como é o Sócrates na real? Ele é meio louco ou é só um cara diferente, com uma atitude não convencional? Ou os dois?


Raí: Ele, como você disse, é meio louco, mas no bom sentido. Um cara como nós aqui.
Na festa de aniversário ele deu um show, compôs umas músicas e gravou com um amigo. Bate a vontade,  a inspiração, ele vai atrás do que ele acredita. Falei que se eu chegar nos 50 anos contagiando, vivendo feliz como ele está, estarei muito contente.


 


AT: Sou Santista, novamente reforço, e fiquei traumatizado com o Raí. Na sua passagem pelo Paris Saint-Germain na França, sei que você foi um grande ídolo. Como é o retorno quando você vai a Paris? O que aconteceu com o Falcão em Roma, esse assédio continua em Paris com você?


Raí: Acontece ainda. Claro que muda um pouco, mas é uma coisa que me surpreende porque saí do Paris Saint-Germain e voltei ao Brasil em 98. Já faz bastante tempo e a cada vez que eu volto na França, as pessoas mostram um respeito bastante grande, agradecem na rua ? ?Obrigado por tudo o que você fez?. É uma reação que geralmente não é normal no francês, que é um pouco mais recatado. Acho que ficou um respeito pelos anos que eu passei lá. Demonstra também que eles têm respeito não só dentro de campo, mas que ultrapassa as linhas do gramado. Fico bastante orgulhoso do reconhecimento positivo, de uma pessoa que representa o Brasil lá fora.


 


PL: Você se casou com 17 anos. Antes disso só teve três namoradas e ficou casado um tempão. É isso mesmo? Como eram essas três namoradas?


 


Raí: É isso aí. Eu fiquei casado 16 anos, 16 anos e meio. Mais ou menos por aí, interior, Ribeirão Preto. A minha esposa, na época minha futura esposa, comecei a namorar com 15 anos. Minha primeira mulher foi a minha esposa.


 


PL: Esse negócio de a toda hora falarem que você é bonitão, isso enche o saco ou é legal? Se você tivesse que pesar as duas coisas, a parte boa e a parte ruim, você acha que pesa mais para qual lado?


AT: Assédio. Paparazzi também na cola querendo te fotografar dando uma bicoca em uma mulher.


Raí: Bom, essa é a parte chata, mas no contexto geral é positivo. Hoje a questão da imagem, se você souber como lidar, pode te abrir muitas portas. A parte negativa, que também às vezes é muito pesada, depende muito de como você encara, os limites que você coloca. Se você reclama de ser exposto, das pessoas quererem saber da sua vida pessoal, você não vai no outro dia mostrar teu banheiro, tua casa. Se você faz isso, está dando liberdade para as pessoas entrarem na tua intimidade em todos os sentidos. A parte negativa tem maneiras de você, pelo menos, amenizar.


 


PL: Voltando a essa questão do preparo físico: tem uns jogadores como o Sócrates e o Romário que dizem que não são atletas, que são só geniais tecnicamente e dão um jeito de estar sempre onde está a bola. Li um artigo outro dia com um suposto especialista dizendo que cada vez menos vão existir jogadores como o Garrincha, o Romário, o próprio Sócrates, que não são brilhantes como atletas, mas são brilhantes tecnicamente com a bola. Você concorda com essa análise?


Raí: Eu concordo em certo ponto. Acho que as regras também devem evoluir ? e espero que evoluam ? no sentido de privilegiar os jogadores mais técnicos para que o espetáculo seja sempre bonito plasticamente. Hoje em dia quem faz a diferença é o jogador técnico, por mais que as duas equipes estejam equilibradas taticamente, fisicamente. Mas na hora de fazer a diferença, é sempre o jogador técnico. Existem algumas posições como a do Romário, por exemplo, que é o centroavante, o jogador que fica ali na frente. Ali não precisa correr muito. Então, dependendo da profissão (posição), você até não precisa ter um preparo físico esplêndido.


 


AT: A gente vê na história do futebol brasileiro jogadores elegantes, que conduziam o time como Ademir da Guia, Falcão, você, o teu irmão Sócrates. Na atualidade tem o Kaká que é também um craque. Atualmente, no futebol mundial e no Brasil, o que nós temos de grandes jogadores cadenciando, levando piano em frente?


Raí: Nesse estilo tem o Zidane, considerado o melhor jogador do mundo nesses últimos anos. Ele não é um jogador superdotado fisicamente, em termos de preparo físico. O que prevalece nele é a técnica. O Kaká que está aí mostrando muita personalidade num grande clube europeu, já se impondo, achando seu espaço ? na Itália está sendo comparado até com Platini… Eles é que dão o diferencial. São jogadores que têm esse estilo de jogo que ao mesmo tempo é técnico, eficiente e elegante. O Alex do Cruzeiro também é um craque. É um jogador com muita habilidade técnica, inteligente. As pessoas diziam muito que ele era bastante irregular ? e era mesmo.


 


PL: Eu estava lendo esses dias na Folha de S.Paulo a coluna do Tostão e ele estava falando sobre a questão do envelhecimento do jogador. As pessoas declaram que o jogador está velho, mas às vezes ele está tecnicamente e fisicamente melhor. Ele citou alguns exemplos, de caras que estão melhores hoje, em todos os sentidos, e qualquer coisinha que fizer de errado, já falam que o cara está velho, enquanto o cara de 20 anos que erra é inexperiente. Como você vê essa história de a idade ser cada vez mais comprimida para baixo? Queria também saber uma curiosidade: se por algum motivo, sei lá, o São Paulo tiver um problema, o ônibus ficar parado na estrada, faltar um jogador e os caras te chamarem para entrar em um jogo hoje, do jeito que você está, você consegue entrar e fazer um papel legal ou não tem a menor condição?


Raí: Não, acho que não tenho. Hoje em dia quando vou jogar minhas peladas e tal, faço exercício, mas não são treinos de futebol. Não tenho aquele ritmo de jogo que os outros jogadores que estão em atividade têm. Você entra lá, dá para enganar, quer dizer, eu teria que jogar mais lá atrás, pegar dois, como a gente fala ? pegar um meio defensivo com dois caras para correr por você. Aí dá para enganar um pouquinho, mas não dá nem para pensar em fazer 60%, 70% do que eu tinha condição quando eu estava em atividade.


Existe uma pressão quanto à idade, mas pouco a pouco está mudando. Os atletas estão também cada vez mais profissionais, a vida útil começa a ser mais longa. Sobre o que o Tostão falou: existem jogadores que realmente vão melhorando com a idade e por dois motivos diferentes. Alguns são privilegiados fisicamente, que é o caso do Cafu. Alguns mantêm ou melhoram fisicamente. Outros, se adaptam à posição, como é o caso do Rincón, que jogava como meia, joga mais atrás e rende bem ali atrás.


 


AT: Sobre o Ronaldo, que é considerado pelo Kajuru um fenômeno de marketing. O que você acha disso?


Raí: O Ronaldo joga na posição dele. Teve a Copa do Mundo de 1998, ele ficou muito magoado, acho que tudo isso deve contribuir também. O Ronaldo na verdade teve momentos não tão bons, mas se você pegar a média de gols na sua carreira inteira é inegável a eficiência dele. Depois de duas operações no joelho, voltar a ser campeão do mundo e fazer o que ele está fazendo no Real Madrid… Só para isso tem que tirar o chapéu.


 


AT: Isto é: um cracaço!


Raí: Cracaço, fenômeno.


 


AT: Raí, a gente quer saber de beldades, independente de seu coração estar partido por alguma mulher… Pelo seus olhos, quais são as três mulheres mais picantes e lindas do Brasil. Manda mesmo, por favor?


PL: Aracy de Almeida e Hebe [risos].


Raí: Deixa eu ver, deixa eu pensar aqui… Daniela Cicarelli, linda. Tem a Vera Fisher, maravilhosa.


 


AT: E a terceira, hors concours?
Raí: Juliana Paes.


PL: Uma das coisas que eu acho marcantes na sua vida é o fato de você, logo depois de ter largado o futebol, ter se dedicado à Fundação Gol de Letra, que tem feito um trabalho muito sério. É lógico que a tua imagem, a imagem do Leonardo, dois campeões do mundo, ídolos, deve facilitar um pouco, mas mesmo assim, a hora que você pega no batente é complicado demais. Vocês pastaram no começo da fundação? Agora está mais fácil? O que vocês estão fazendo?


Raí: Tem sempre muito trabalho, mas é complicado. O começo é muito difícil. Eu joguei com o Leonardo em 97, 98 e quando eu voltei para o Brasil em 98, já tínhamos conversado, ?Vamos ter uma iniciativa juntos, um apóia o outro?. Ele continuou na Itália e quando retornei, fui buscar algumas informações para começar o trabalho, saber por onde começar. Tive a sorte de conhecer uma pessoa que é da Fundação ABRINQ Pelos Direitos das Crianças, uma fundação muito séria, já com 15 anos de experiência, com pessoas muito competentes ali dentro, o que eu acho que amenizou bastante.


Eles nos assessoraram para fazer tudo: indicaram profissionais desde a área jurídica, para montar e instituir a fundação, à área pedagógica, já que era um trabalho pedagógico também. Nos indicaram alguns profissionais muito competentes que foram montando o projeto com a gente. Isso com certeza nos facilitou o caminho.


 


PL: Você está imerso nessa atividade e isso não dá grana, quer dizer, isso reverte para a própria fundação. O patrimônio que você juntou com o futebol te garante o resto da vida?


Raí: Garantir, não garante. Sou uma pessoa que tem uma vida super-simples, não sou de ostentar, não preciso de muita coisa. As pessoas que convivem comigo ficam até mais preocupadas com o meu futuro do que eu mesmo. Não precisa muita coisa para ser feliz. Quero viajar, gosto de viajar, disso eu não abro mão, mas para o meu conforto diário não preciso de muita coisa. É claro que  a gente precisa ter alguma receita, tem os filhos e tal, não se sabe o que vai acontecer no futuro. Eu trabalho mais com a fundação, tendo pouca receita, tem um comercial aqui, outro lá. Agora, voltei a ser comentarista na TV Record e aí tem uma renda que me ajuda no dia-a-dia.


 


PL: Já que você é comentarista, vou querer que você faça comentários rápidos, tipo sessão pinga-fogo para a gente terminar. Nós vamos falar nomes de pessoas, você faz um comentário rápido. Podemos ir?


 


PL: Pelé?


Raí: Rei.


 


PL: Ricardo Teixeira?


Raí: Sai fora.


 


PL: Eurico Miranda?


Raí: [Risos.] Vai junto com ele.


 


PL: [Risos.] Milton Neves?


Raí: Grande comunicador.


 


PL: Sócrates Brasileiro?


Raí: Ídolo.


 


AT: Kajurú?


Raí: Figuraça.


 


PL: Ronaldinho ou Ronaldo Fenômeno?


Raí: Os dois. Sou fã dos dois.


 


PL: David Beckham?


Raí: Eu acho que é o cara que…


 


PL: Cheiroso!


Raí: Apesar de ele dar muita importância para isso, consegue ainda jogar legal.


 


PL: Para a gente terminar: percebo que a moçada tem a maior vontade de ajudar quem tem menos condição e não sabe direito como fazer. Tem algum jeito, na prática, de o cara dar uma força na Fundação Gol de Letra?


Raí: Nós trabalhamos com mais de 100 voluntários que trabalham pontualmente. Existe um grupo de profissionais que é a base do trabalho, mas existem muitos outros que contribuem com a gente. Eles podem acessar o site www.goldeletra.org.br e contribuir. Estamos lançando um projeto de sócios que chamamos de Sócio Títular Gol de Letra. São contribuições a partir de R$ 20 mensais. Eles recebem camisetas, informativo de tudo o que está sendo feito na fundação, todos os eventos, os resultados. Também podem acompanhar o trabalho dessa forma.

 
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