Há três anos estou apreendendo a vida fora das grades. Muita coisa ainda é absoluta novidade. Gozo dessa liberdade inaugural que a vida me oferece, com extremo prazer. Acho que é isso que mantêm minha insanidade sobre controle. Como descobrir e curtir um novo artista, por exemplo. Havia ouvido alguma coisa do Zeca Baleiro. Parecia mais um autor/cantor; nada de genial. Todo mundo já conhecia. Não assisto TV e nem ouço rádio, é minha desculpa. Leio (de tudo; jornais, livros, panfletos, pasta de dente…) e assisto filmes.
Enorme prazer descobrir esse grande artista. O conjunto de sua obra é especialíssimo. Faz de tudo, de heavy metal a ponto de umbanda, passando por samba, rap e forró; e com muita qualidade. Sua rima, riquíssima, é envolvente, qual inaugurasse novo mundo a cada composição. Alegria sem tamanho sentir que ainda existem artistas que a gente pode ficar esperando o próximo passo, na certeza que será surpreendente e interessante.
Recebi CD que continha show ao vivo de Ana Carolina e Seu Jorge. Ana já é íntima. Sabia quanto é iluminada. Mas Seu Jorge, não gostei. A começar pelo nome. Depois fui ouvindo falar dele. Tenho um amigo que o conhece desde quando dormia na areia da praia de Ipanema. Ouvi-lo, embora reconhecesse a voz forte e dramática, parecia intelectual demais. E música, para mim, é pura emoção.
Mas esse CD me deixou tomado. As lágrimas escorriam pela cara e eu cantava, gritava junto, na extraordinária interpretação de “É isso ai”. O timbre e a extensão de voz do negão (desculpe a intimidade) são qualquer coisa de fenomenais. É um artista com rara sensibilidade, comovente e teatral. Imaginei-me na platéia e senti que entraria em êxtase.
Não gosto da música que essas duplas de bonitinhos afinados têm feito. Voz educada, embora ajude, não faz o artista. A arte sai da vida, da sensibilidade, da alegria, da dor e das convicções de quem a produz. Às vezes, viver é esperar a partida daqueles que não suportaremos a ausência. Ai então, viver é nos fazer chorar. Arte, para mim, é a expressão dessas vivências sofridas, alegrias inesperadas e felicidades fecundas.
Claro, impossível não notar a dupla Bruno & Marrone. O problema, para mim, era o repertório; brega demais. Mas, recentemente, comecei prestar mais atenção. Talvez houvesse algo. E não é que havia mesmo? Um grande cantor, desses que não existem mais.
Seu timbre é único. Não conheço nenhum artista, no momento, que alcance aquele tom alto e volumoso o tempo todo. Sua voz é poderosa e potencializa emoção. Explode comunicando uma febre que pode levar ao delírio. Há algo de urgência, de absolutamente necessário nos nervos com que expressa suas emoções. Percebe-se claramente que ele esta crescendo, logo seu repertório o alcançará, tenho fé.
Estou aprendendo novos grandes valores artísticos. Privilégio que preenche minha vida de significados e motivações. E quanto ainda a conhecer… Como é bom estar aprendendo!!!
Composto por Luiz Alberto Mendes em 09/01/2007.