Quando um escritor é profundo,
todas as suas obras são confissões.
Bernard Shaw
As paixões, igual às manhãs, nunca são completas. Sempre aparecem ao clarear e a gente nunca sabe quando é tarde. Vivi tórridas paixões por várias mulheres e objetivos. Sempre fui de uma a outra porque ninguém ou nada jamais me completou de verdade. Hoje sei que ninguém nem projeto algum são suficientes para qualquer um de nós.
Acho que a única coisa completa que poderia nos apaixonar de verdade, sem nos frustrar, é a vida. Uma paixão pela vida inteira, do modo que fizeram os grandes homens, como Gandhi, Alberto Shweitzer ou, recuando no tempo, Francisco de Assis. Mas, coitados de nós, pequenos que somos. Não conseguimos essa plenitude de sentimentos e visão. Então a vida é muito para nós, tememos que nos engolfe, esganados que somos. Escolhemos um nicho e por ali nos fazemos. Já agora adaptados e conformados com a incompletude. O que resta é essa angustiazinha fina a nos agulhar a todo momento em que estamos sós.
O que fazer? Se estivéssemos conversando pessoalmente eu diria, deselegantemente: “E você vem perguntar para mim? Mal sei pôr meus pés em cima dos meus passos, como poderia responder a algo tão infinito?”. Sim, porque são mesmo infinitas as possibilidades de quem quer fazer alguma coisa. O problema é que alguma coisa é sempre pouco e o todo não conseguimos abarcar.
Posso dizer como tento lidar como isso. Não me prendo a nichos. Alguns querem me tornar especialista sobre prisão, dado o meu passado. Outros, pensando em meu presente, escritor. Tem quem queira que eu seja palestrante ou até ator. Agora que estou entrando de sola no teatro (já tenho duas peças), invadindo roteiros e telas de cinema, provavelmente pensarão que esta deve ser a direção. E eu sei que não é, mas que é também.
A velocidade com que a vida vai tornando tudo obsoleto é fulminante. Parece que estamos em tempo líquido, em que a vida não pode mais fincar raízes. Por isso vou fazendo tudo o que aparece e me sinto competente. Claro, na maioria das vezes, chego inseguro, tateando. Assim que sinto que posso, então vou conhecendo, expandindo. Depois vejo o que posso fazer a partir de mim, relacionando com o que está pintando. Sigo curioso, voraz, como uma esponja a absorver tanto quanto possa.
É um outro tipo de paixão. E asseguro que da mesma intensidade de todas as outras. Conhecer, admirar, gostar, se envolver e então se apaixonar. E o que estou vivendo é mais interessante ainda. Percebo que a cada nova paixão as anteriores não diminuem de valor. Continuo apaixonado por elas também. Me explico. Ultimamente ando muito ligado em teatro e cinema. Tento me esforçar ao máximo e absorver tudo o que surja. Mas continuo amando escrever, sei que esta é minha direção. Estar discutindo sobre o que tenho pensado em relação ao que tenho lido, percebido e estudado. Acho que serei um eterno estudante, um aprendiz.
Continuo fazendo palestras apaixonadamente. Quase sempre choro, emocionado, e, o melhor, quem me ouve chora e se emociona também. É quase uma catarse. Boa parte do tempo, tento conquistar, então produzo pensamentos provocativos e brinco com as pessoas. Faço alegria com as mãos. Vendo meus livros arrojadamente. É esse o dinheiro que sustenta meu povo (e não somente meus filhos) e a vida que me esforço por levar.
É sério e profundo porque a educação, alimentação e cuidado com pessoas dependem disso. Não é apaixonante saber que o fruto de sua luta vai possibilitar pessoas a crescer, se desenvolver e viver suas vidas? É mais que poético, e qualquer trabalhador, por mais humilde, pode afirmar isso de boca cheia.
Viver, muitas vezes, é revolver. Observar passos e escombros por nós deixados e reconstruir. O momento urge, mas não insta. Então cerro os punhos, travo os dentes e sigo em frente em busca de algo ou alguém que me comova o suficiente. No fundo, tudo o que queremos é compreender, gostar e fazer durar desse jeito. Só que tudo é demasiadamente complexo e tem um fim. Daí a tragédia que virou o drama humano.
Talvez estejamos enganados. Amar, se apaixonar, então seriam apenas uma forma de escapar do fato de não nos sentirmos bem com nós mesmos. De qualquer modo, ainda assim acho que vale a pena. Principalmente se conseguirmos nos sentir bem com os outros, pelo menos. Tudo é singular e criatividade é o máximo que podemos oferecer à vida, em troca de sua generosidade para conosco.
