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Ansiedade

Por Luiz Mendes*    Ilustração Abiuro

Cazuza afirmava que era exagerado, eu digo que sou ansioso. Sim,  ansioso. E não aconselho a ninguém que o seja. Sofro muito e, por conta disso, às vezes sou até ridicularizado. Respiro todo o ar em torno e me pergunto onde estou e se já não consigo estar somente em mim? O que tenho e o que sou nunca me foi suficiente.


Vivo a tudo ultrapassar sem sequer perceber que estou passando, perdido de mim, sem por mim me dar. Mas o que é ânsia em mim é também voracidade de viver. Uma luta enorme contra o tempo nessas minhas trajetórias sem fim. Vou passando dentro do tempo e sei que é ínfima a parcela que percebo ou retenho de sua magnitude. Ele foge ao longe, mesmo a cair sobre mim sem que eu o perceba. Na verdade, tudo é infinitamente maior do que sou capaz e, por isso, sempre é ontem, como queria o poeta.


Bato minhas asas desesperado e poucas são as vezes que sou saciado em minha sede de estar além, naquilo que ainda não estou. Tenho vontade de engolir o tempo, dar passos além de minhas pernas. Vencer o paulatino, o sedimentar, queimar etapas, pular a rotina e o método. Traio a mim mesmo como um amante perdido entre tantos amores. Erro quase sempre que me projeto, mas não me perco de mim porque prefiro estar perdido, mas em mim, aqui dentro. Sinto saudades da parte do tempo que perdi e não consegui viver. Sei que minha vida poderia ser muito mais significativa se conseguisse absorvê-la gomo a gomo, um de cada vez. Mas não tenho preferência, eu apenas a absorvo inteira porque não sei fazer diferente.


Desespero-me a viajar outros sentidos, outras vidas. Assim alastrado, já que o que sou não me satisfaz, viver outros clarões, para além da tristeza de não ser muitos e apenas eu. ?Onde existo que não existo em mim?? questiona um poeta português que posteriormente se suicidaria estupidamente.


Acho que ansiedade não é um mal de todo. Há uma ultrapassagem que vai além de mim, do que vou sendo, e que me enche de prazer. É aquela em que me transponho a caminho do outro.  A outra pessoa com suas grandezas e mesquinharias, suas riquezas e misérias pessoais intransferíveis. Mas então amo ansiosamente, quero completamente e no presente instante. É um derramamento, uma esponja a absorver a liquidez e o ar. Um sufocamento, poucos compreendem ou conseguem agüentar.


Só assim me liberto do descompasso, da angústia e do humano que é dor em mim. Escapo do que é meu, da desconfiança, do orgulho e de minhas seguranças tão duramente conquistadas. Ultrapasso-me porque passo a aceitar cada pessoa no que ela pode ser capaz de re-velar-se. Há toda surpresa do conhecimento, já que cada um pode vir a ser a esperança de preenchimento da totalidade que exige minha ansiedade. A magia de dar sem perder. De qualquer maneira, apesar de ansioso, penso, e pensar me torna parte do tempo e da paisagem, pairo, solúvel no ar, compondo, fazendo parte da vida.


 


*Luiz Mendes, 50, cumpriu a pena máxima prevista pela justiça brasileira, 30 anos, por assalto e homicídio, e hoje vive em São Paulo. Seu e-mail é: l.mendesjr@ig.com.br

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